A surpreendente saga da família que sobreviveu ao Holocausto
"History's Secret Heroes" é uma série de podcast da BBC Radio 4 apresentada pela atriz Helena Bonham Carter, na qual são compartilhadas histórias de pessoas desconhecidas que realizaram feitos extraordinários durante a Segunda Guerra Mundial. Leia mais (09/18/2026 - 07h00)

Escritora, doutora em filosofia e literatura alemã pela University College Cork e mestre em filosofia pela Universidade de Tel Aviv
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"History’s Secret Heroes" é uma série de podcast da BBC Radio 4 apresentada pela atriz Helena Bonham Carter, na qual são compartilhadas histórias de pessoas desconhecidas que realizaram feitos extraordinários durante a Segunda Guerra Mundial.
Em seu episódio mais recente, baseado no livro "Gigantes No Coração", dos jornalistas israelenses Eilat Negev e Yehuda Koren , a série conta a surpreendente saga da família Ovitz, formada por sete artistas com nanismo que sobreviveram ao Holocausto.
Nascidos em Rozavlea, uma cidadezinha na região da Transilvânia, atual Romênia, Avram, Micki, Rozika, Frieda, Perla, Elizabeth e Franziska integravam a Trupe Lilliput , que, na década de 1930, percorreu países como a Hungria, apresentando esquetes e números musicais.

Judeus observantes, os irmãos Ovitz herdaram do pai, Shimshon, o nanismo e o talento artístico. Era conhecido como rabino itinerante e badkhan (tradicional comediante e mestre de cerimônias de casamentos judaicos).
Consciente de que os filhos não teriam condições físicas de trabalhar no campo, Shimshon e, posteriormente, sua segunda esposa, Batia, os incentivaram a desenvolver talentos que pudessem garantir algum sustento.
Avram, o mais velho, acompanhava Shimshon em suas viagens e também atuava como badkhan. Com a morte do pai, porém, ele não tinha como sustentar os irmãos, que tampouco queriam se dispersar. Assim nasceu a ideia de formarem uma trupe.

Inicialmente, a família pensou em criar um grupo de música klezmer (gênero folclórico instrumental tradicional dos judeus), mas a concorrência era grande. Na década de 1930, artistas com nanismo desfrutavam de certa popularidade na indústria do entretenimento, e já havia bandas de músicos de baixa estatura em atividade na Europa.
Os Ovitz criaram, então, um espetáculo próprio, que combinava música e comédia, explorando o carisma de cada integrante em esquetes escritas por Avram.
A versatilidade dos integrantes chamava a atenção. Fluentes em iídiche, alemão, romeno e húngaro, eles também interpretavam baladas em outros idiomas, como o russo, levando o público ao delírio.

Pouco a pouco, os Ovitz se tornaram celebridades. Em Rozavlea, eram os únicos que tinham carro e se vestiam de acordo com a moda da época. As mulheres da trupe andavam sempre maquiadas e, durante o Shabat (dia sagrado de descanso semanal no judaísmo), a elegância da família despertava admiração.
Mesmo no final dos anos 1930, com a escalada do antissemitismo, os Ovitz conseguiram manter a Trupe Lilliput nos palcos, embora para isso tivessem de esconder sua identidade judaica.
A situação da família só piorou quando o norte da Transilvânia foi incorporado ao território húngaro, em 1940, e, quatro anos depois, a Hungria foi ocupada pelos nazistas. Em abril de 1944, os judeus de Rozavlea foram encaminhados para um gueto em Dragomirești e, de lá, em 19 de maio, os Ovitz chegaram a Auschwitz-Birkenau.
No campo de concentração, os integrantes da Trupe Lilliput chamaram a atenção não somente por sua baixa estatura, mas, principalmente, por serem membros de uma mesma família. Esse último aspecto despertou o interesse de Josef Mengele, médico e oficial nazista, que realizava experimentos com prisioneiros sob o pretexto de investigar condições hereditárias.
Os experimentos de Mengele assemelhavam-se à tortura e não raro terminavam com a morte dos prisioneiros. Durante oito meses em Auschwitz, os Ovitz foram submetidos a procedimentos inimagináveis, mas sobreviveram.
Com a libertação do campo de concentração, em 27 de janeiro de 1945, os Ovitz, mais uma vez, contrariaram o destino e se tornaram a maior família a sobreviver intacta ao confinamento em Auschwitz.
Em 1949, eles se mudaram para Israel, onde continuaram a viver juntos e retomaram suas carreiras, conquistando novamente o público com sua alegria.
A vida, porém, jamais voltou a ser a mesma. Talvez por isso, Perla, a última sobrevivente da família, morta em 2001, aos 80 anos, costumasse dizer que, apesar da sua energia e amor pela vida, o seu sorriso ainda guardava toda a dor que carregava no coração.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/juliana-de-albuquerque/2026/09/a-surpreendente-saga-da-familia-que-sobreviveu-ao-holocausto.shtml.

A família Ovitz em imagem reproduzida no livro "Gigantes no Coração", de Eilat Negev e Yehuda Koren - Divulgação/Divulgação · Divulgação/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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