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    A rua é o destino: como o Brasil financia a miséria

    Não se pode romantizar a questão e fingir que não existe um grave problema de segurança pública na capital da República

    Metrópoles
    17 de agosto de 2026 às 18:37
    A rua é o destino: como o Brasil financia a miséria
    Foto: Metrópoles

    Imagens brutais flagraram um morador de rua desferindo um chute na cabeça de uma criança de 5 anos. O autor ainda tentou dar uma cabeçada na policial, que interveio e foi preso.

    Após a confecção de termo circunstanciado, bem como avaliação médica, que negou internação involuntária do agressor, foi novamente colocado em liberdade.

    Infelizmente, esta covardia não é um ato isolado, diversos outros casos recentes tiveram destaque . O problema ora revelado vem sendo construído há anos e a virtude da tragédia é que parece estar ganhando espaço na agenda política.

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    Imagem gerada por IA — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Inicialmente, é importante esclarecer que seria desonesto afirmar que toda a população de rua é criminosa. Há ali um universo heterogêneo, com pessoas vitimadas pela pobreza, vício, doenças psiquiátricas, violência e exclusão. Mas, em contrapartida, não se pode romantizar a questão e fingir que não existe um grave problema de segurança pública vinculado .

    Os crimes envolvendo moradores de rua são inúmeros.

    Infelizmente, por falha na coleta de dados, não há estatística oficial auditável. Entretanto, o então Secretário de Segurança do DF, Sandro Avelar, revelou em dezembro de 2025 que “cerca de 70% dos homicídios na região metropolitana do DF envolviam, entre vítimas e autores, pessoas em situação de rua.” Agosto de 2026 não criou essa realidade. Apenas rompeu a anestesia.

    Foto de Ronney Augusto Matsui
    Foto de Ronney Augusto Matsui — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    O segundo Censo Distrital contou 3.521 pessoas em situação de rua no DF, crescimento de 19,4% em relação a 2022. O Plano Piloto concentra aproximadamente um quarto delas. Diante disso, uma pergunta incômoda se impõe: como a população em situação de rua continua crescendo na mesma proporção em que avança a estrutura estatal destinada a ampará-la?

    Existem Centros POP com alimentação, higiene, guarda de pertences e acompanhamento socioassistencial; abrigos; hotéis sociais com espaço para animais de estimação; abordagem de rua; restaurantes comunitários; programas de transferência de renda; atendimento de saúde; iniciativas de qualificação e inserção profissional.

    Somente em 2025, os 18 restaurantes comunitários do DF forneceram mais de 1,8 milhão de refeições gratuitas a pessoas em situação de rua (crescimento de 33% em relação a 2024). Nada disso é condenável, mas para onde toda essa assistência conduz?

    A rua é o destino: como o Brasil financia a miséria
    A rua é o destino: como o Brasil financia a miséria — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    O sucesso da assistência não pode ser medido pelo volume de refeições servidas, atendimentos, vagas ou benefícios concedidos. É preciso medir quantas pessoas deixaram a rua, quantas venceram a dependência, quantas voltaram para suas famílias, quantas largaram o ócio e recuperaram a capacidade laboral, passando a sustentar a própria existência.

    Quando uma política social contabiliza entradas, mas não exige portas de saída, ela institucionaliza a degradação. O que vemos hoje não é acolhimento, é o financiamento da miséria.

    Chegamos a este ponto guiados por uma prevalência perigosa de uma concepção de mundo estritamente progressista, assistencial e despenalizadora, buscando limitar o poder punitivo do Estado. Consolidou-se a ideia dogmática de que o criminoso é, invariavelmente, resultado e uma “vítima da sociedade”.

    Portanto, não deve ser responsabilizado integralmente pelos seus atos. Entretanto, a biografia do agressor não apaga a vítima e vulnerabilidade social não pode funcionar como salvo-conduto penal.

    Paralelamente a isso, reconhece-se que a reforma antimanicomial teve fundamentos legítimos em abusos e internações indefinidas.

    Entretanto, ao invés de corrigirem as distorções ou inovar em um instituto substituto, impôs-se a colocação de um ser humano completamente degradado condenado a morrer em liberdade sobre uma calçada, correndo-se o risco de que cometa diversas barbaridades com vítimas completamente inocentes.

    Assim, as ruas tornaram-se hospícios a céu aberto. O espaço público está loteado por dependentes químicos e pessoas em surto, que encontram na rua o ecossistema perfeito para a manutenção do seu estado.

    Eles têm onde dormir e comer graças às estruturas públicas, e recebem transferências de renda que apenas financiam a continuidade do vício. A quase totalidade destas pessoas não deseja emprego, pois auferem renda maior com o assistencialismo, sem qualquer obrigação a seguir.

    Assim, a nação está, progressivamente, entregue ao ócio subsidiado. A dependência sistêmica já não cabe apenas na pedra de crack ou na garrafa de álcool, mas avança para a epidemia silenciosa das apostas virtuais (bets).

    O Estado transfere renda para proteger o vulnerável e as plataformas de jogos sugam esses recursos com a ilusão do enriquecimento instantâneo. O indivíduo torna-se refém da droga, do jogo e do benefício estatal, sem qualquer perspectiva de autonomia.

    O problema é profundo e estrutural. Soma-se à questão de população em situação de rua e fim da política manicomial, que a legislação penal brasileira se tornou um labirinto de benefícios desenhado meticulosamente para esvaziar a punição.

    A rápida progressão de regime, as penas alternativas, o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) e a suspensão condicional do processo transformaram a sanção estatal em uma mera sugestão. A punição, quando raramente ocorre (face ao número imensamente maior de crimes sem elucidação), é tardia e em intensidade inadequada.

    Essa inversão de valores é coroada com institutos como o auxílio-reclusão, garantindo amparo financeiro a quem escolheu delinquir, enquanto a verdadeira vítima é deixada à própria sorte.

    O ápice do escárnio contra a sociedade trabalhadora atende pelo nome de “saidinha”. Apenas nos últimos dias, o país assistiu estarrecido ao caso de um criminoso condenado que, beneficiado pela saída temporária de Dia dos Pais, assassinou as próprias filhas de forma brutal apenas para punir a esposa.

    Aqui no Distrito Federal, essa mesma engrenagem complacente permitiu que outro criminoso ceifasse a vida da idosa que, em um ato de compaixão, o havia acolhido em casa, além de estuprar outras duas mulheres . É a materialização de um sistema de justiça criminal que devolve predadores ao convívio de suas presas.

    O Governo do Distrito Federal começou a agir. Mas as ações permanecem insuficientes porque o problema ultrapassa as competências locais. É preciso uma agenda federal envolvendo legislação penal e processual (estabelecendo, p. e., o endurecimento contra a reincidência, a redução de institutos despenalizadores, etc.), saúde mental, política sobre drogas, assistência social, moradia, trabalho e segurança pública.

    É urgente a inserção de condicionantes e portas de saída nas políticas assistencialistas, com foco absoluto na recuperação da degradação humana.

    A política assistencial deve ter uma ambição paradoxal: trabalhar para que seu beneficiário deixe de precisar dela. Exemplificando, para aqueles que possuem capacidade laboral, o benefício social precisa estar conectado a uma trajetória concreta de qualificação e autonomia. Para quem consegue sair da rua, a política pública precisa impedir o retorno.

    O livro A Máfia dos Mendigos, de Yago Martins, provoca uma reflexão cirúrgica ao questionar a caridade impessoal que injeta recursos sem exigir responsabilidade.

    Compaixão sem estratégia gera permanência e assistência sem exigência gera dependência crônica. Será que ajudar alguém a ficar na mesma condição indefinidamente é realmente ajudar?

    Mas há quem ganhe com a crescente miséria. O endividamento das famílias brasileiras atingiu o patamar recorde de 82% em julho de 2026, o maior nível da série histórica.

    Em contrapartida, em 2025, os bancos brasileiros registraram lucro recorde de R$ 255 bilhões, segundo dados do Banco Central. Isso não prova que os bancos produzem pobreza, mas ajuda e entender que a vulnerabilidade não é economicamente neutra.

    A miséria retroalimenta o sistema. A manutenção desse colapso social, com a crescente dependência do Estado, impõe que não haja o menor interesse em qualquer mudança, especialmente porque essas pessoas votam.

    Enquanto as ruas afundam em violência e dependência, as estruturas de topo permanecem intocáveis. O macro-sistema financeiro e político alimenta-se dessa assimetria: o assistencialismo anestesia a base, as bets corroem o pouco que resta da renda, e a elite lucra com juros altos e endividamento, ou seja, a roda girando exatamente como está.

    A realidade, nua e crua para quem atua na linha de frente da segurança pública e do sistema de persecução penal, afasta qualquer otimismo. Enquanto a miséria for um negócio lucrativo, enquanto o assistencialismo cego for a regra e o criminoso for tratado pelo Estado como uma vítima incompreendida, continuaremos enxugando gelo à custa do sangue dos cidadãos de bem.

    Sob essa conjuntura estrutural e ideológica, blindada por interesses que lucram com a nossa degradação, a verdade mais difícil de engolir é uma só: nos moldes atuais, isso aqui não tem solução.

    Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/colunas/juris/a-rua-como-destino-como-o-brasil-financia-a-miseria.

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