Brasil

    'A Raquete do Vovô' e os pais que continuam morando na memória

    Nina Ramos faz encontro geracional entre avô e neto por meio da imaginação em livro infantil

    UOL
    9 de agosto de 2026 às 03:00
    'A Raquete do Vovô' e os pais que continuam morando na memória
    Foto: UOL

    Reflexões sobre os múltiplos sentidos da morte e fim da vida

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    A Raquete do Vovô, livro de estreia de Nina Ramos - Carolina Santos/Carolina Santos · Carolina Santos/Carolina Santos
    A Raquete do Vovô, livro de estreia de Nina Ramos - Carolina Santos/Carolina Santos · Carolina Santos/Carolina Santos — Foto: UOL · Fonte: UOL

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    Hoje, uma conhecida da minha família disse que estaria atarefada com o Dia dos Pais . Então, emendou: "Que pena que você não tem mais seu paizinho". Me senti na obrigação moral de dar uma resposta malcriada. Mas tudo que veio à mente foi: "Nada disso, eu tenho pai, segue bem vivo aqui".

    A resposta, tanto abstrata, quanto firme, com certeza nasceu inspirada na leitura desta semana: o livro infantil "A Raquete do Vovô" (Editora Quelônio), obra de estreia da escritora, jornalista e roteirista Nina Ramos, e ilustrada por Carol Cuquetto.

    A Raquete do Vovô, livro de estreia de Nina Ramos - Carolina Santos/Carolina Santos · Carolina Santos/Carolina Santos
    A Raquete do Vovô, livro de estreia de Nina Ramos - Carolina Santos/Carolina Santos · Carolina Santos/Carolina Santos — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Levei a raquete debaixo dos braços, pra lá e pra cá, nos meus trajetos de trem. Tito, um menino brincante e curioso, foi meu grande companheiro. Afinal, o livro nasce, na ficção e na realidade da vida, de uma indagação que muda a rota do passado e transforma o presente e o futuro. "Um dia, o menino entrou no quarto e reparou em uma raquete de madeira muito bonita pendurada na parede. ‘De quem é?’, perguntou para a sua mãe. ‘É a raquete do vovô’, ela respondeu". Há perguntas capazes de abrir uma fresta no tempo. Esta, com certeza, convocou a mãe de Tito, a própria autora, a mergulhar na memória do avô Cacalo —o pai de Nina, que morreu quando ela tinha um ano e meio. "Não convivi, não lembro da voz. Tenho fragmentos. Quando eu me dei conta do tamanho da presença dessa ausência dentro de mim, eu falei: ‘Preciso escrever isso’." A dúvida de Tito foi muito importante para que Nina enxergasse novamente aquela raquete e voltasse a refletir sobre as saudades do pai. "As histórias infantis abrem espaço para que os adultos possam elaborar sentimentos que eles não têm tempo no dia a dia".

    Se a raquete é do vovô, por que ele não vem brincar? A frustração do menino se instala. A mãe, astuta, não dá respostas, mas abre caminhos. "O vovô não pode aparecer para brincar aqui. A mãe lembrou de quando ela, ainda menina, fez a mesma pergunta para sua mãe. Lembrou também do segredo revelado para fazer esse encontro acontecer", diz um trecho do livro. "É muito importante estar mais atento às dúvidas das crianças e ter tempo de parar, agachar, olhar nos olhos, ouvir e responder", diz a autora, que encontrou na maternidade reflexões importantes para sua escrita. "Tento ouvir sem colocar a minha ansiedade na frente, para depois elaborar uma resposta que só responde aquela pergunta, que nem fique aquém e nem além. A pergunta é a medida do que ele precisa ouvir." A raquete, a máquina fotográfica, uma camisa e um pratinho na sala tornaram-se lugares de memória, ressuscitando o avô em uma máquina do tempo infalível: a imaginação misturada aos trechos de memórias. "Quando você estiver deitado, esperando o soninho chegar, imagine o vovô. Imagine bem forte. Cabelos, olhos, mãos, voz, abraço. E assim, de tanto pensar, ele vai aparecer para você". Na vida real, Nina gosta de imaginar situações em que o pai utilizava a camisa ou a câmera fotográfica. "Quantos pontos será que ele fez com essa raquete? Será que ela era pesada? Eu tenho também um pratinho de prata. O dele está todo amassado. Imagino a minha avó dando comida pra ele. Passei a valorizar muito mais a memória que esses objetos guardam. Eles contam coisas que ninguém escreveu, mas que continuam ali, de alguma forma. E, hoje, eu sou muito grata à minha mãe por ter guardado tudo isso para mim", diz.

    Arrisco-me a trazer a zoóloga e filósofa Donna Haraway, em seu livro "Quando as espécies se encontram", intimando-nos a olhar para todos os seres que compõem a teia da nossa história. "Para vir a aceitar o desmembramento do corpo, preciso re-membrar [remember] seu devir. Preciso reconhecer todos os membros, animados e inanimados, que compõem o nó de uma determinada vida". Mágica posta, o avô e o menino brincam sem parar. O garoto descobre um novo poder, a mãe redescobre esse lugar sagrado que tem a imaginação de uma criança. Ela recupera a sua, própria, com o pai que também não conheceu, mas que agora renasce no filho e se eterniza neste livro.

    Conheça 6 livros para pais e filhos lerem juntos no Dia dos Pais
    Conheça 6 livros para pais e filhos lerem juntos no Dia dos Pais — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Entendi que era a ponte entre ele e esse avô. É uma grande missão. Eu quero que ele saiba desse avô. Eu quero que ele tenha orgulho. Eu quero que ele entenda de onde vem o sobrenome, a sobrancelha dele. Por isso que eu fiz o livro. Resgato agora muito mais as histórias, elas têm um significado e efeito muito mais especial", reflete a autora. Obrigada, Nina, por me dar respostas que eu não teria facilmente sozinha. Tive vontade de bater na casa da conhecida e entregar a raquete do vovô —mas educadamente. Viu, só, como eu não dizia mentira? E como não só o meu pai, mas o pai da Nina e todos os pais que já morreram, continuam aqui. Até hoje, quando passo pela agenda improvisada de telefones, me emociono com a letra garrafal do meu pai. Passo a mão, está tão vivo em azul. Seguro a mão da Jéssica de 12 anos atrás e a abraço, como abraço você agora, que perdeu o seu pai há pouco ou há muito tempo. Nesse Dia dos Pais, eu espero que a sua memória e a sua imaginação te levem para muitos lugares com seu pai. Que os objetos da casa contem histórias e que você feche os olhos e possa lembrar do amor que permanece nesta máquina do tempo que é a memória.

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    Mulher com um livro e uma foto e objetos sobre a mesa — Foto: UOL · Fonte: UOL

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    Mulher com um livro e uma foto e objetos sobre a mesa — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/morte-sem-tabu/2026/08/a-raquete-do-vovo-e-os-pais-que-continuam-morando-na-memoria.shtml.

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    A Raquete do Vovô, livro de estreia de Nina Ramos - Carolina Santos/Carolina Santos · Carolina Santos/Carolina Santos — Foto: UOL

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