A pulseirinha é como ter a minha mãe constantemente com o dedo no pulso
Comprei uma dessas pulseirinhas que medem o batimento cardíaco , monitoram o sono e contabilizam o número de passos que uma pessoa dá por dia. A pulseirinha avalia o meu desempenho e depois faz queixa ao celular. Leia mais (08/29/2026 - 08h00)

Humorista, membro do coletivo português Gato Fedorento. É autor de “Boca do Inferno”
Texto cômico, geralmente sobre um tema atual
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Comprei uma dessas pulseirinhas que medem o batimento cardíaco , monitoram o sono e contabilizam o número de passos que uma pessoa dá por dia. A pulseirinha avalia o meu desempenho e depois faz queixa ao celular.
Todos os dias, quando acordo, a pulseirinha comunica-me quantas horas dormi e quanto desse tempo foi passado em sono profundo e sono REM .

Eu não sei distinguir entre sonos, mas a pulseirinha diz que estou dormindo uma quantidade muito aceitável de cada sono diferente.
A pulseirinha também diz quantas vezes é que eu respirei durante a noite. Estando no pulso, não sei como é que ela consegue apurar esses dados.
Talvez um funcionário da marca se introduza secretamente no meu quarto e fique à minha cabeceira a contar cada inspiração e expiração e saia pouco antes de eu acordar.
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Quando eu consulto os dados, verifico que a pulseirinha pretende que eu estabeleça uma competição comigo próprio, tentando dormir melhor do que no dia anterior. Mas ela também me incentiva a competir com outras pessoas.
Por exemplo, anteontem disse-me que eu tinha dormido menos do que 75% dos utilizadores da pulseirinha. Por isso, ontem fui para a cama determinado a relaxar mais do que essa gente. Querem competição de relaxamento, vão tê-la. Vamos ver quem relaxa mais e melhor.
A questão é que isso me enervou, evidentemente, o que fez com que eu relaxasse pior. É como ter a minha mãe constantemente com o dedo no meu pulso.
"Devias dormir melhor. Que se passa? O teu batimento cardíaco está 20% acima do que é costume. Tens comido bem? Não fazes exercício desde a semana passada."
Esse é outro problema. A pulseirinha detecta que eu estou praticando atividade física. Mas não distingue entre atividades físicas, se é que me entendem. Registra que o batimento cardíaco aumenta e a respiração fica mais ofegante, mas não percebe se eu estou no ginásio ou, digamos, em outro lugar.
Ontem, a pulseirinha detectou atividade física e fez o seguinte comentário: " Vinte minutos não é muito . Deve apontar para uma hora".
Ora, como já tive oportunidade de dizer, há um eco maternal nestes comentários, e eu acho um pouco aflitivo ter a minha mãe a dar opiniões sobre esta área da minha vida. Vamos com calma, pulseirinha.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ricardo-araujo-pereira/2026/08/a-pulseirinha-e-como-ter-a-minha-mae-constantemente-com-o-dedo-no-pulso.shtml.

Ilustração de Luiza Pannunzio para coluna de Ricardo Araújo Pereira de 30 de agosto de 2026 - Luiza Pannunzio/Folhapress · Luiza Pannunzio/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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