A posição do Brasil em um mundo fragmentado
Em 20 de setembro último, líderes de Brasil, Canadá, Quênia e Conselho Europeu anunciaram, em artigo no Financial Times, a iniciativa "Partners for Multilateralism" ("Parceiros pelo Multilateralismo"), reunindo países de diferentes regiões para renovar o compromisso com a cooperação internacional . Leia mais (10/01/2026 - 22h00)

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Professora livre-docente no Instituto de Relações Internacionais da USP
Doutoranda em direito econômico na Faculdade de Direito da USP
Em 20 de setembro último, líderes de Brasil, Canadá, Quênia e Conselho Europeu anunciaram, em artigo no Financial Times, a iniciativa "Partners for Multilateralism" ("Parceiros pelo Multilateralismo"), reunindo países de diferentes regiões para renovar o compromisso com a cooperação internacional .

Duas questões orientam esse esforço de renovação. A primeira é a fragmentação geopolítica em um mundo extremamente interdependente. A segunda é que defender o multilateralismo exige não só preservar as instituições existentes, mas reformá-las e ampliar sua representatividade.
A fragmentação geopolítica recoloca no centro do debate a definição de alianças, blocos e áreas de influência. A pandemia e os conflitos recentes expuseram as vulnerabilidades de uma economia organizada em cadeias globais de produção, enquanto a competição entre China e Estados Unidos acentuou o uso do comércio e dos investimentos internacionais como armas de poder.
Nesse contexto, a formação de alianças e estratégias de "friendshoring" e "nearshoring" —que concentram cadeias produtivas em países politicamente próximos ou geograficamente vizinhos— ganham força como resposta a preocupações com segurança nacional e resiliência econômica. Mas podem resultar em mercados menores, duplicação de cadeias produtivas, menor difusão de conhecimento e prejuízo a respostas coletivas a desafios globais, como a crise climática.

Como disse Mark Carney , primeiro-ministro do Canadá, no Fórum Econômico Mundial , em janeiro de 2026: "Um mundo de fortalezas será mais pobre, mais frágil e menos sustentável."
O cenário remete à Guerra Fria , com uma diferença fundamental: o mundo atual é muito mais interdependente e os custos de uma nova divisão global tendem a ser maiores do que no século passado.
Os países emergentes estão particularmente expostos a esses riscos. Economias como a brasileira dependem de relações comerciais e investimentos provenientes de diferentes regiões. Por isso, é necessário que o Brasil mantenha sua pos tura de não subordinação e não alinhamento total a nenhuma potência ou bloco hegemônico.

Essa necessidade remete à segunda questão: defender o multilateralismo exige não apenas proteger suas instituições, mas reformá-las e torná-las mais representativas.
A ordem internacional pós-1945, fundada sob a hegemonia dos EUA e de outras economias industrializadas, não esteve imune à influência desses países. Sua trajetória revela uma tensão permanente entre os interesses dos países centrais e o mandato multilateral de desenvolvimento.
Garantir a essas instituições autonomia frente aos interesses das grandes potências exige postura independente e proativa dos países emergentes, que devem ocupar os espaços multilaterais para defender seus projetos e sua soberania.
A construção das instituições, domésticas ou internacionais, é processo longo que exige posicionamento e negociação —por isso a sua erosão não se reverte facilmente. Em um mundo que se fragmenta, sustentar uma posição de não subordinação pode ser desafiador, mas é essencial para proteger a integridade e os interesses do país.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/a-posicao-do-brasil-em-um-mundo-fragmentado.shtml.

Lula cumprimenta o presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim, durante visita oficial do governo brasileiro à China - Tingshu Wang - 13.mai.25/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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