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    'A perda de um filho nos deixa semimortos': autor homenageia filha em 'Elogio à Saudade'

    A conversa sobre o livro "Elogio à Saudade" aglomerou centenas de pessoas na última edição da Feira do Livro , em São Paulo. Seu autor, o educador e filósofo Fernando José de Almeida , falava sobre o luto por sua filha, Lorena, que morreu em 2023, aos 43 anos. Leia mais (08/27/2026 - 12h00)

    Folha de S.Paulo
    27 de agosto de 2026 às 15:00
    'A perda de um filho nos deixa semimortos': autor homenageia filha em 'Elogio à Saudade'
    Foto: Folha de S.Paulo

    Reflexões sobre os múltiplos sentidos da morte e fim da vida

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    O escritor Fernando José de Almeida em sua casa, no bairro do Sumarezinho - Karime Xavier/Folhapress · Karime Xavier/Folhapress
    O escritor Fernando José de Almeida em sua casa, no bairro do Sumarezinho - Karime Xavier/Folhapress · Karime Xavier/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Doutora em Direito, autora de 'A Vida Afinal: Conversas Difíceis Demais para se Ter em Voz Alta'

    A conversa sobre o livro "Elogio à Saudade" aglomerou centenas de pessoas na última edição da Feira do Livro , em São Paulo. Seu autor, o educador e filósofo Fernando José de Almeida , falava sobre o luto por sua filha, Lorena, que morreu em 2023, aos 43 anos.

    No livro, em que escreve sobre esperança de futuro, ausência de certezas e de vacina contra a intensa dor de mundo que Lorena sentia, Fernando narra o processo de vivência com o luto, num manifesto pela vida apesar da perda trágica. "Sou outro. Acho que melhor. Sobrevivi", escreve.

    Fernando José de Almeida estreia na literatura aos 82 anos
    Fernando José de Almeida estreia na literatura aos 82 anos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A escrita salva muitas pessoas nos processos de luto. Seu livro é, além de um ato de salvação, a busca por nomear o indizível? Não pensei nisso enquanto escrevia, nem fiz com esse objetivo, mas, quando damos nome ao sentimento, é como se nos apossássemos dele. É isso que Freud diz. A palavra é uma apropriação do objeto, não completa, mas importante, porque faz ter maior controle sobre ele. O sentimento do "não-nomeado" carrega todo o peso do obscuro trágico. O exercício da escrita ajuda a elaborar as ideias enquanto o luto vai acontecendo. Isso se dá desde os primeiros instantes, da cerimônia de velar o corpo, até os encontros que tenho ainda hoje com pessoas próximas a ela, e sempre que evocamos o nome da Lorena.

    Andrés Bruzzone escreveu que "um dia, depois de muitos, descobre-se que hoje não choramos; que o primeiro pensamento do dia não foi o filho morto (foi o segundo pensamento, talvez, e isso faz toda a diferença)". E depois? No início, a dor é contínua. Não há idas e vindas. É enorme o alívio quando o primeiro pensamento do dia não é essa dor. Mas, na minha experiência, apesar da diminuição da frequência, a dor só aumentou. Deixou de ser um pensamento que me consumia o tempo todo, mas passou a ser mais intensa. Faço muitas coisas, trabalho muito, caminho com as amigas da Lorena; tenho vários momentos de não sofrer, de disfarces que amenizam a dor. Mas a interrupção não causa sua diminuição, pelo contrário: a intermitência da dor faz com que ela se condense, fique mais forte nos momentos em que perdura.

    Você pensou que a publicação do livro ajudaria outras pessoas a sobreviver às perdas? Quando encontrei, por acaso, um amigo, o José Miguel Wisnik , contei que estava escrevendo um livro sobre a Lorena. Ele perguntou: "Está te ajudando?", e respondi que sim. Ao que ele me disse: "Então continua. Porque vai fazer bem aos outros". Na minha ecologia familiar, fui um inventariante do sofrimento que a perda da minha filha provocou. Invoquei a responsabilidade por administrar as dores dos meus netos —seus filhos, de 15 e 18 anos—, e da minha esposa, a mãe da Lorena, que estavam ainda mais abalados que eu. Eu precisava prover os atenuantes do sofrimento, e não me entregar ao papel de sofredor, para aumentar o grau de suportabilidade que a família sofria. Essa condição de administrador de sentimentos me levou a uma demanda para que eu os narrasse. Fiz isso pela primeira vez a pedido do site "Vamos falar sobre o luto?", projeto que pretende conectar "pessoas e informações que estão dispersas para tornar o luto menos solitário e desamparado". Então, de certa forma, essa ajuda sobre a qual você me pergunta já estava apresentada como uma consequência do que eu viria a fazer.

    Capa de 'Elogio à Saudade' de Fernando José de Almeida - Divulgação · Divulgação
    Capa de 'Elogio à Saudade' de Fernando José de Almeida - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Elogio à Saudade" é um livro sobre suicídio? Eu não escrevi um livro sobre suicídio. Falo sobre a minha filha, Lorena, que morreu por suicídio. Mas falo sobre a vida dela. Na história dela, entendo que houve uma escolha do momento de sair, e isso não diz nada para mais ninguém, nem diz sobre as razões de um suicida, razões que jamais conheceremos. Podemos especular, mas isso provavelmente levará a injustiças e irresponsabilidades. Eu não consigo ver minha filha como uma coitada, pela forma como ela organizou sua partida. Eu a vejo como alguém que quis sair da vida com dignidade. Mas eu não tento entender o suicídio. E nem poderia.

    Sinto que esta conversa foi mais dolorosa do que eu pretendia. Desculpe se fui invasiva. É difícil falar sobre a Lorena, mas é bom falar sobre ela. Celebrar a pessoa que era a própria festa em cada lugar a que chegava, que era bonita, charmosa, cheia de vida. Mas que também sentia de forma intensa a dor de mundo de que você falou. Esse incômodo lacrimejante que tenho ao falar também ajuda a depurar aspectos da perda.

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    Capa branca com o título 'Elogio à Saudade' em letras pretas no topo, seguido pelo nome do autor Fernando José de Almeida. Abaixo, há uma ilustração simples de uma cadeira preta vista de lado. No rodapé, a frase 'Seja Breve' em letras peque
    Capa branca com o título 'Elogio à Saudade' em letras pretas no topo, seguido pelo nome do autor Fernando José de Almeida. Abaixo, há uma ilustração simples de uma cadeira preta vista de lado. No rodapé, a frase 'Seja Breve' em letras peque — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/morte-sem-tabu/2026/08/a-perda-de-um-filho-nos-deixa-semimortos-autor-homenageia-filha-em-elogio-a-saudade.shtml.

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    O escritor Fernando José de Almeida em sua casa, no bairro do Sumarezinho - Karime Xavier/Folhapress · Karime Xavier/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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