A metástase institucional do caso Master
As revelações mais recentes sobre Davi Alcolumbre acrescentam uma dimensão ainda mais grave à crise política atual. Seu comportamento podia ser explicado, em larga medida, pela dinâmica institucional de um presidente hiperminoritário diante de um Legislativo hostil. Nessa interpretação, Alcolumbre seria essencialmente o agente representativo de uma maioria parlamentar. Leia mais (09/27/2026 - 14h30)

Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

As revelações mais recentes sobre Davi Alcolumbre acrescentam uma dimensão ainda mais grave à crise política atual. Seu comportamento podia ser explicado, em larga medida, pela dinâmica institucional de um presidente hiperminoritário diante de um Legislativo hostil. Nessa interpretação, Alcolumbre seria essencialmente o agente representativo de uma maioria parlamentar.
Essa explicação institucional não é falsa. Tornou-se, porém, claramente insuficiente.
O presidente do Senado é o gatekeeper dos pedidos de impeachment contra ministros do Supremo e de instalação de CPIs. Apenas Alexandre de Moraes acumula 55 pedidos; contra o conjunto dos ministros, segundo o próprio Alcolumbre, foram protocolados 109. A rejeição da indicação de Messias ao STF também parecia confirmar que o Senado recuperara sua condição de ponto de veto diante do Executivo.

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro apontam para uma relação de grande promiscuidade entre o banqueiro e Alcolumbre. Os dois se tratavam como irmãos "para a vida toda". Outros diálogos mencionam festas organizadas pelo ecossistema do Master e a presença de mulheres selecionadas para os convidados. O problema não se limita à vida privada. A Amprev, fundo de previdência dos servidores do Amapá, aplicou centenas de milhões de reais em papéis do Master. Um irmão de Alcolumbre integrava o conselho da instituição.
A decisão recente de Cristiano Zanin sobre a CPI do Master torna o quadro ainda mais nefasto. O requerimento apresentado por Alessandro Vieira tinha 41 assinaturas —muito mais do que as 27 exigidas pela Constituição— e apontava fato determinado: as relações pessoais, financeiras ou funcionais entre ministros do STF e Vorcaro. Embora já tivessem transcorrido quase seis meses sem que Alcolumbre desse andamento ao pedido, Zanin afirmou não estar suficientemente comprovada , "por ora", omissão ou abuso de poder por parte do presidente do Senado.
A decisão colide com uma jurisprudência claríssima do próprio Supremo: a instalação de uma CPI constitui direito da minoria parlamentar. Zanin não apenas preservou o poder de veto do presidente do Senado: fez isso em benefício de um gatekeeper cuja relação com o principal investigado acabara de ser revelada.
A informação também lança outra luz sobre o jantar realizado em agosto na casa de Moraes . Reuniram-se ali Moraes, Zanin, Lula e Alcolumbre, fora das agendas oficiais, para promover uma "reconciliação" entre os presidentes da República e do Senado. Poucas semanas depois, um dos ministros presentes recusou-se a obrigar Alcolumbre a instalar uma CPI destinada justamente a investigar as relações de integrantes do Supremo com Vorcaro.
O passivo de suspeitas, vínculos comprometedores e ilícitos passa, assim, a sobredeterminar as relações entre os três Poderes. Presidentes, ministros e parlamentares deixam de agir apenas segundo suas preferências institucionais e passam a calcular também os riscos de exposição e retaliação. O que emerge não é simples corporativismo, mas um sistema de vulnerabilidades cruzadas, no qual a omissão de hoje pode ser trocada pelo silêncio de amanhã. É essa a metástase institucional do caso Master.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcus-melo/2026/09/a-metastase-institucional-do-caso-master.shtml.

O presidente do Senado Federal, senador Davi Alcolumbre (União-AP) - Carlos Moura - 27.nov.25/Agência Senado · Carlos Moura - 27.nov.25/Agência Senado — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

