A longevidade que ninguém consegue vender
Você já viu a cena. Um médico de aparência impecável, uma parede de diplomas ao fundo, a promessa do caminho para chegar bem aos 100 anos . Bastaria cortar uma lista crescente de alimentos, monitorar cada marcador do corpo, cuidar do intestino, tomar suplementos e seguir protocolos que custam o salário mensal de muitas famílias. A mensagem por trás é sedutora e cruel: envelhecer bem dependeria de compreender mecanismos cada vez mais complexos e ter dinheiro para intervir em todos. Quem pode pagar monitora. Quem não pode, envelhece errado. Leia mais (08/22/2026 - 22h00)

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Psiquiatra, é doutor em ciências (USP) e pesquisador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (FMUSP), onde dirige o Pro-DRAS (Programa de Ensino, Pesquisa e Assistência em Depressão Resistente ao Tratamento, Autolesão e Suicidalidade).
Você já viu a cena. Um médico de aparência impecável, uma parede de diplomas ao fundo, a promessa do caminho para chegar bem aos 100 anos . Bastaria cortar uma lista crescente de alimentos, monitorar cada marcador do corpo, cuidar do intestino, tomar suplementos e seguir protocolos que custam o salário mensal de muitas famílias. A mensagem por trás é sedutora e cruel: envelhecer bem dependeria de compreender mecanismos cada vez mais complexos e ter dinheiro para intervir em todos. Quem pode pagar monitora. Quem não pode, envelhece errado.
É preciso dizer com clareza: a medicina salva vidas. Alimentar-se bem, exercitar-se, dormir, não fumar, vacinar-se, controlar a pressão e a glicemia, fazer os rastreamentos indicados e tratar transtornos mentais adequadamente: todos são pilares do cuidado. O problema começa quando esse cuidado vira um produto sem fim: cada exame encontra um risco, cada risco pede outro exame, cada resultado pede uma fórmula que promete comprar mais alguns anos. É assim que pessoas saudáveis viram pacientes permanentes.

Relógios medem sono, variabilidade da frequência cardíaca e oxigenação; aplicativos estimam até o estresse. Medem quase tudo, menos se a vida que estamos prolongando ainda tem tempo de ser vivida. Cada hora vigiando o corpo é uma hora a menos para olhar para dentro e para a vida que de fato queremos viver.
É por isso que as chamadas "blue zones" (zonas azuis) seguem interessantes: não como dieta mágica nem receita universal, mas como contraponto. O que chama a atenção nessas comunidades não é uma rotina organizada em torno de biomarcadores. O movimento faz parte do cotidiano. A comida é simples e compartilhada. As pessoas cuidam de alguém, são cuidadas e mantêm um papel na família mesmo depois de velhas. Não passam o dia tentando vencer o tempo. Simplesmente vivem. Okinawa , no Japão, mostra também o caminho inverso. Os okinawanos nascidos antes da Segunda Guerra seguem entre os mais longevos do planeta; os nascidos depois morrem mais cedo que a média japonesa. Em 2002, a província despencou do 4º ao 26º lugar no ranking do país. A vantagem não nasceu de protocolos caros: começou a desaparecer à medida que a vida simples se transformou.
Nada disso é romantismo. Uma metanálise com mais de 300 mil participantes encontrou cerca de 50% mais probabilidades de sobrevivência entre pessoas com relações sociais mais fortes, magnitude que os autores compararam à de fatores de risco clássicos. Em 2025, a Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde estimou que a solidão está associada a cerca de 871 mil mortes por ano.

Trabalho com depressão resistente e comportamento suicida . Ali, vínculo não é abstração afetiva. Muitas vezes, o que sustenta alguém no sofrimento é saber que existe uma pessoa para quem telefonar, uma casa onde entrar, alguém que perceberia sua ausência. Pertencer não cura tudo. Mas impede que o sofrimento seja atravessado inteiramente sozinho.
Tampouco se trata de culpar quem está só. Vínculos dependem de tempo, de segurança, de espaços públicos, de jornadas de trabalho humanas. Uma sociedade que esgota as pessoas, destrói os espaços comuns e transforma cuidado em mercadoria não pode, depois, vender um suplemento contra a solidão. Cuidar da saúde é essencial. Mas o cuidado convertido em consumo desenfreado produz ansiedade, culpa e vigilância sem necessariamente acrescentar saúde —e, quase nunca, felicidade.
Ainda estou longe de viver o que aprendi. Cancelo encontros com pessoas amadas, respondo mensagens com pressa, deixo que o trabalho sempre ocupe o lugar de quem amo. Mas hoje tenho mais certeza de que no que custa pouco há muito: uma refeição com pessoas queridas, uma visita, a coragem de dizer "eu te amo" antes que seja tarde, uma gentileza para quem menos espera.

A indústria da longevidade pergunta quantos anos acrescentamos à vida. Falta perguntar quanta vida cabe nesses anos. Quem se sentiria menos sozinho se você telefonasse agora? Essa pergunta não aparece em nenhum painel de exames. Talvez seja exatamente por isso que ninguém consiga vendê-la.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/a-longevidade-que-ninguem-consegue-vender.shtml.

Ilustração de Catarina Pignato - Folhapress · Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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