A inteligência artificial influenciou de forma decisiva as escolhas dos eleitores? NÃO
Em 25 de julho, a convenção do PL exibiu um vídeo em que a inteligência artificial devolvia ao ex-presidente Jair Bolsonaro a voz e a imagem para pedir votos ao filho Flávio . O caso foi parar no Tribunal Superior Eleitoral ( TSE ), rendeu manchetes e virou símbolo de uma eleição supostamente sequestrada pelas máquinas. Falta responder à pergunta mais simples: quem mudou de voto por causa daquele vídeo? Quem já era bolsonarista seguiu sendo. Quem não era não se converteu diante de um avatar. Leia mais (10/02/2026 - 22h00)

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Economista e estatístico, é assessor e cientista de dados no Banco do Brasil; professor na FEA-USP e na FGV-Eesp
Em 25 de julho, a convenção do PL exibiu um vídeo em que a inteligência artificial devolvia ao ex-presidente Jair Bolsonaro a voz e a imagem para pedir votos ao filho Flávio . O caso foi parar no Tribunal Superior Eleitoral ( TSE ), rendeu manchetes e virou símbolo de uma eleição supostamente sequestrada pelas máquinas. Falta responder à pergunta mais simples: quem mudou de voto por causa daquele vídeo? Quem já era bolsonarista seguiu sendo. Quem não era não se converteu diante de um avatar.
Na véspera do primeiro turno, a resposta honesta à pergunta deste debate é "não". A inteligência artificial ocupou a campanha , mas não decidiu a escolha do eleitor. O que ela decidiu, até aqui, foi o tom da conversa sobre a eleição.

Disseminados, conteúdos que a IA produz moldam a realidade a partir da qual o eleitorado define o seu voto
Não se trata de otimismo, mas sim de evidência. Em 2024, o ano com mais eleições da história, o Alan Turing Institute , centro britânico de ciência de dados, acompanhou os pleitos com lupa. Na eleição geral do Reino Unido, encontrou apenas 16 casos virais confirmados de desinformação feita com IA; na França e no Parlamento Europeu somados, 11. Nenhuma prova de que algum resultado tenha sido alterado. O pesquisador Felix Simon, de Oxford, ajuda a entender por quê: o ecossistema digital já transbordava mentiras baratas muito antes dos geradores de imagem. O gargalo da desinformação nunca foi apenas produzir conteúdo falso e sim conquistar atenção e convencer quem não estava predisposto a acreditar nele.
Volume não é efeito. O Observatório IA nas Eleições registrou 413 casos de uso político da tecnologia só na pré-campanha brasileira, a maioria deepfakes de políticos . O número impressiona e merece fiscalização. Mas, como constatou o próprio Turing, a exposição a esse tipo de material se concentra em quem já concorda com ele: reforça, não converte. Voto se decide por renda, emprego, rejeição, identidade e memória, e nada disso cabe num prompt.

Os defensores do "sim" têm um argumento sério: experimentos publicados na Nature e na Science mostraram que conversas de poucos minutos com chatbots deslocaram a simpatia por candidatos mais do que anúncios tradicionais. É verdade; e é preocupante. Mas foram testes controlados, com exposição forçada; um mês depois, o efeito havia encolhido, embora parte dele persistisse, e as mudanças na intenção declarada de voto foram pequenas.
Capacidade demonstrada em laboratório não é impacto medido na urna. Tampouco basta dizer que, em disputa apertada, qualquer empurrão decide: pela mesma lógica, o preço do café e a chuva no domingo também seriam decisivos. Quem afirma causa precisa prová-la.
E o microdirecionamento ? A IA de fato virou infraestrutura: segmenta anúncios, produz vídeos, testa slogans. Mas todas as campanhas competitivas dispõem das mesmas ferramentas. Uma arma que todos portam não desequilibra a disputa para lado nenhum.
Há, sim, um risco real, e ele é o oposto do que se anuncia. O perigo não é o robô virar votos; é o eleitor passar a desconfiar de tudo, inclusive do que é verdadeiro. Quando qualquer gravação comprometedora pode ser descartada como "coisa de IA", ganha quem mente. O próprio Turing alerta para essa erosão da confiança —o pânico em torno da tecnologia só a alimenta.
Atribuir os resultados deste domingo (4) a efeitos de uma máquina é confortável. Absolve o candidato derrotado, dispensa a análise das urnas e trata mais de 158 milhões de eleitores como marionetes. Não são. A inteligência que vai decidir esta eleição ainda é a natural, seja para o bem ou para o mal, seja para a alegria de alguns ou para a tristeza de outros.
Observação: este artigo não foi criado com auxílio de modelos de IA.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/a-inteligencia-artificial-influenciou-de-forma-decisiva-as-escolhas-dos-eleitores-nao.shtml.

Vídeo de IA de Jair Bolsonaro (PL) é exibido em convenção de seu filho Flávio, em São Paulo - Beto Barata - 25.jul.26/Divulgação PL — Foto: Folha de S.Paulo
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