Brasil

    A infestação moral dos ratos

    A recordação de uma leitura da pequena infância ajusta-se ao dito de Machado de Assis de que "o menino é o pai do homem" (em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"). Na reminiscência, desfia-se uma parlenda: "Ratusca Boduça de Rafo Rafuça / morava na roça / Por voracidade quis ir à cidade com toda essa troça / os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos / que filhos lhe são / pois lá na cidade tem uma comadre / que habita o porão / da gorda ricaça Fifica Fogaça / que tem na despensa / mui ricas pitanças pra suas papanças / e nem sequer pensa / que os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos / de noite aí vão..." L

    Folha de S.Paulo
    10 de outubro de 2026 às 18:30
    A infestação moral dos ratos
    A imagem mostra cercas de metal dispostas em um padrão ao redor de uma área aberta, com o Palácio da Alvorada ao fundo. O céu está nublado e a estrutura do palácio é visível, com janelas grandes e uma cobertura distinta. O chão é de pedras — Foto: Folha de S.Paulo

    Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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    Praça dos Três Poderes, na região central de Brasília, que une as sedes do poder Executivo, Legistativo e Judiciário - Pedro Ladeira - 25.abr.25/Folhapress · Pedro Ladeira - 25.abr.25/Folhapress
    Praça dos Três Poderes, na região central de Brasília, que une as sedes do poder Executivo, Legistativo e Judiciário - Pedro Ladeira - 25.abr.25/Folhapress · Pedro Ladeira - 25.abr.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A recordação de uma leitura da pequena infância ajusta-se ao dito de Machado de Assis de que "o menino é o pai do homem" (em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"). Na reminiscência, desfia-se uma parlenda: "Ratusca Boduça de Rafo Rafuça / morava na roça / Por voracidade quis ir à cidade com toda essa troça / os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos / que filhos lhe são / pois lá na cidade tem uma comadre / que habita o porão / da gorda ricaça Fifica Fogaça / que tem na despensa / mui ricas pitanças pra suas papanças / e nem sequer pensa / que os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos / de noite aí vão..."

    Dá para adivinhar o resto, uma fábula de predação.

    Curioso que o baú mnemônico guarde ao pé da letra a lenga-lenga infantil de uma escolinha do cafundó nordestino. Mas lembranças engarrafadas às vezes se destapam em susto ou sorriso, como no aforismo nietzscheano da "festa da memória". Brasília evoca essa cidade para onde acorrem predadores ávidos pelas "pitanças" do poder, isto é, o assalto à "despensa" das verbas públicas e o acesso corruptivo aos donos da mais-valia decisória: dirigentes, parlamentares, juízes. No escurinho dos porões.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A lembrança da fábula foi provavelmente ativada pela fácil analogia entre "o porão da gorda ricaça" e o "cofre da Viúva" (Elio Gaspari) . Também não terá sido coincidência a voracidade da família de Ratusca Boduça e dos quatro Rafelhos com o notório clã de predadores políticos. Até agora, eles amealharam um patrimônio imobiliário escandaloso, navegando no fluxo corruptivo de milhões de dólares. Uma peste moral.

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    Por isso, o flagelo cabe na alegoria de ratos mortos nas ruas como em "A Peste", de Albert Camus: a epidemia metaforiza a condição humana frente ao dilema absurdo entre indiferença e solidariedade no sofrimento. Pusilanimidade cívica ou anestesia da consciência impedem de perceber a "destilação leprosa" ("leprous distilment", Hamlet, ato 1, cena 2), tal como Shakespeare descreve a passagem da corrupção física à moral, capaz de contaminar o corpo da nação.

    "O menino é o pai do homem", sim, o passado nunca se cala, mas o adulto dialoga com sua meninice pela escrita da experiência, dos livros, das linhas da sorte. Daí a prontidão da metáfora: o Tesouro Nacional como despensa saqueada. A infestação agrava-se com a corrupção transformada em lepra moral, que já se naturalizou. "Ladrões do dinheiro público são agora campeões de voto", diz um político. Narcoestado miliciano pentecostal? Pouco importa. Camundongos tornaram-se ratazanas bem nutridas por focos internacionais do flagelo.

    Não é mera divagação acadêmica a diferença entre urbe, enquanto disposição arquitetônica num espaço, e a ideia de Polis como centro político da movimentação democrática de um povo. Vista apenas como urbe, a cidade concebida por Lucio Costa e Oscar Niemeyer nada tem a ver com o que terminou abrigando. Já o que seria o "coração" da Polis republicana, por arritmia burocrática com a nação, infartou. Um corpo sem órgãos. Na historieta, um gato acaba com a festa dos ratos. Em Brasília, Fifica Fogaça não mais consegue distinguir gatos de gatunos.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/muniz-sodre/2026/10/a-infestacao-moral-dos-ratos.shtml.

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    Praça dos Três Poderes, na região central de Brasília, que une as sedes do poder Executivo, Legistativo e Judiciário - Pedro Ladeira - 25.abr.25/Folhapress · Pedro Ladeira - 25.abr.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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