A indústria do tabaco e a peleja para manter uma atividade lesiva à população
A indústria do tabaco , para não trair suas tradições, vem aumentando sua agressividade no esforço para reverter a queda de fumantes que vinha sendo observada globalmente e no Brasil. Leia mais (09/23/2026 - 22h00)

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Médico na Divisão de Pneumologista do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP-SP
Médico sanitarista da Fiocruz Brasília e diretor da Associação Brasileira de Saúde Coletiva; ex-presidente da Anvisa
A indústria do tabaco , para não trair suas tradições, vem aumentando sua agressividade no esforço para reverter a queda de fumantes que vinha sendo observada globalmente e no Brasil.

Seus esforços concentram-se em: lançar produtos à base de nicotina , como se inofensivos fossem, para manter as pessoas dependentes e, com isso, estimular o uso dual; introduzir aromatizantes no cigarro eletrônico e atrair o jovem consumidor; introduzir nicotina sintética nos produtos para aumentar a dependência; estimular a venda pela internet, pontos de vendas fixos ou em festas e baladas, mesmo nos países que não legalizaram os cigarros eletrônicos e aquecidos. Usam a venda ilegal para criar mercado e pressionar a legalização de seus produtos. Só ingênuos acreditam que os contrabandistas produzem e vendem esses fumígenos ao arrepio das poderosas tabaqueiras.
Há mais energia aplicada: financiar veladamente, ou não, a indústria de propaganda e do cinema para voltar a apresentar produções com atores e personalidades com cigarros —imagens que haviam desaparecido nos últimos 30 anos ressurgiram; e patrocinar, com disfarce para fugir da legislação, eventos como a recente Parada LGBTQIA+ e outros eventos culturais.
Outro caminho é a inserção na mídia. No último dia 4 de setembro, a Phillip Morris Brasil (PMB) e a British American Tobacco (BAT Brasil) estavam entre os patrocinadores de um caderno especial do jornal Valor, sob o título de "Mercado ilegal". Nele, o presidente da PMB afirma: "É preciso tomar uma decisão: se queremos deixar esse mercado de produtos de tabaco e de nicotina sem combustão nas mãos do Estado ou se queremos deixar seu controle em mãos ilícitas e criminosas". Ele talvez desconheça que o mercado de tabaco já está em mãos criminosas legalizadas, pois há mais de 70 anos sabemos que fumar adoece e mata pessoas. Um outro artifício é reforçar a cooptação ingênua ou interessada de pesquisadores universitários mundo afora, com artigos sendo publicados em prestigiadas revistas científicas.

1 - Manter a proibição da comercialização de produtos como os cigarros eletrônicos, sachês e dispositivos de tabaco aquecido;
2 - Para isso, persistente e rigorosa orientação e fiscalização nos estados e municípios para inibir vendas em lojas e no comércio em geral, em atividades e eventos sociais, esportivos e culturais;
3 - O governo federal deve bloquear a venda pela internet e por aplicativos desses produtos;

4 - Cessar a venda de cigarros avulsos em lojas, bares, padarias, bancas de jornais e ambulantes;
5 - Intensificar, a partir de orientação do Ministério da Saúde , esclarecimentos contínuos sobre os malefícios do tabagismo e dos produtos com nicotina e sem tabaco queimado. Incluir a comunicação em toda a rede de ensino e de saúde e em todos os veículos de comunicação;
6 - Ampla campanha nacional sobre os benefícios da proibição de fumar produtos do tabaco e vapes em ambientes internos;

7 - Estabelecer meta para reduzir a prevalência de consumo de tabaco para até 5% para todas as faixas etárias e estratos socioeconômicos até 2040;
8 - Proibição indefinida de venda de produtos de tabaco para nascidos a partir de determinado ano, como Reino Unido e outros países fizeram . Exemplo: nascidos a partir de 2010, atualmente com 16 anos de idade ou menos;
9 - Fim de qualquer apoio governamental para o cultivo do tabaco;
10 - Apoio governamental para os pequenos agricultores deixarem de plantar tabaco e migrarem para a produção de alimentos. Garantir apoio econômico e técnico por longo prazo para que, dessa forma, os pequenos agricultores migrem de produção;
11 - Proibição de todos os agentes aromatizantes e outros aditivos em produtos de tabaco;
12 - Congelamento da oferta de novas marcas e suas variantes;
13 - Medidas para reduzir os lucros e o poder de fixação de preços dos fornecedores de tabaco;
14 - Aumento imediato da idade mínima para venda dos produtos do tabaco: 18 para 21 anos;
15 - Como estabelecido para o amianto, datar o fim da fabricação e comercialização de produtos do tabaco e de nicotina. Fim da indústria do tabaco até 2050.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/a-industria-do-tabaco-e-a-peleja-para-manter-uma-atividade-lesiva-a-populacao.shtml.

Cigarros eletrônicos apreendidos na fronteira do Brasil com o Paraguai, em Foz do Iguaçu (PR) - Danilo Verpa - 18.mai.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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