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    A indústria do álcool pode estar à frente da prevenção?

    Como é que, em pleno 2026, ainda pode parecer uma boa ideia colocar a indústria do álcool dentro de uma política pública para reduzir o consumo de bebidas ? Não é uma pergunta hipotética. Basta olhar para dois programas brasileiros: o Modera SP , da Prefeitura de São Paulo , e o novo Modera Brasil , lançado em âmbito nacional. Leia mais (08/16/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    17 de agosto de 2026 às 01:00
    A indústria do álcool pode estar à frente da prevenção?
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    Mensagem em paróquia na zona leste de São Paulo onde são realizados encontros de grupo de Alcoólicos Anônimos - Jardiel Carvalho - 25.ago.23/Folhapress
    Mensagem em paróquia na zona leste de São Paulo onde são realizados encontros de grupo de Alcoólicos Anônimos - Jardiel Carvalho - 25.ago.23/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Psicóloga e doutora pela Unifesp, é autora de 'Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis' (ed. Contexto); foi consultora da OMS e da Opas e professora da Universidade Columbia (EUA)

    Como é que, em pleno 2026, ainda pode parecer uma boa ideia colocar a indústria do álcool dentro de uma política pública para reduzir o consumo de bebidas ? Não é uma pergunta hipotética. Basta olhar para dois programas brasileiros: o Modera SP , da Prefeitura de São Paulo , e o novo Modera Brasil , lançado em âmbito nacional.

    O Modera SP foi desenvolvido em uma parceria público-privada que contou com o apoio da AB InBev Foundation, ligada à Ambev , e de pesquisadores da USP. A indústria do álcool, portanto, já participava da construção desse modelo na capital paulista. Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde anunciou a ampliação nacional do modelo. O acordo de cooperação técnica nº 1/2026 firmado entre o Ministério da Saúde e a CRBS S.A., subsidiária da Ambev, visa desenvolver e implementar ações de comunicação, prevenção, educação e engajamento social sobre o consumo de álcool, inclusive com recursos digitais e tecnológicos.

    Veja como funciona a triagem do Modera SP para identificar o padrão no consumo de álcool
    Veja como funciona a triagem do Modera SP para identificar o padrão no consumo de álcool — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O argumento para programas como o Modera é conhecido entre os especialistas da área de bebidas alcoólicas: o chamado "screening, brief intervention and referral to treatment" ( SBIRT , ou "triagem, intervenção breve e encaminhamento para tratamento"). A estratégia identifica pessoas que apresentam consumo de risco, frequentemente por instrumentos como o Audit (questionário criado pela Organização Mundial da Saúde ), e oferece uma intervenção e/ou encaminhamento para tratamento quando necessário.

    A OMS inclui o SBIRT entre as cinco áreas de ação do Safer, seu principal programa para reduzir os danos relacionados ao álcool.

    Mas aqui existe uma distinção fundamental. A recomendação da OMS para uma estratégia de saúde pública não é uma recomendação para que a indústria do álcool participe da formulação ou da implementação dessa política. Pelo contrário: a própria OMS afirma que existe um evidente conflito de interesses entre os objetivos da indústria —que dependem do aumento das vendas de álcool e da remuneração de seus acionistas— e os objetivos dos governos, que deveriam proteger a população e reduzir os danos à saúde.

    Pesquisas mostram relação do álcool com a saúde
    Pesquisas mostram relação do álcool com a saúde — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segundo a organização (e décadas de literatura científica), a participação da indústria de produtos nocivos (incluindo a de álcool e a de tabaco, por exemplo) tem conseguido enfraquecer, atrasar ou desvirtuar políticas públicas. Entre as estratégias identificadas estão a interferência na formulação de políticas e a cooptação de pesquisadores e universidades para colaborar com organizações financiadas pela indústria.

    É fácil entender o que a indústria de bebidas alcoólicas pode ganhar com uma parceria desse tipo. Em termos de relações públicas e construção de imagem ("somos parte da solução"), é difícil imaginar um ativo mais valioso: uma empresa que produz e comercializa um produto associado a acidentes, mortes, doenças, dependência e violência passa também a aparecer como parceira de governos na prevenção desses mesmos problemas. E ainda pode associar sua marca a universidades, pesquisadores e estratégias respaldadas pela OMS. Mas o que a saúde pública ganha?

    Essa é a pergunta que deveria ser feita antes de qualquer parceria desse tipo. Como o conflito de interesses foi avaliado? Que mecanismos garantem a independência da política? E qual é a evidência de que a participação da indústria produz algum benefício adicional para a população? Em ano de eleição, é importante destacar que não se trata de uma questão de direita, esquerda ou centro. Governos de diferentes orientações políticas têm estabelecido relações semelhantes com a indústria do álcool. O problema, portanto, não é partidário. É institucional.

    Reunião do AA (Alcoólicos Anônimos): depoimentos, conselhos e apoio
    Reunião do AA (Alcoólicos Anônimos): depoimentos, conselhos e apoio — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há ainda uma questão de transparência. Plataformas como essas coletam dados pessoais como o CPF do cidadão e informações sobre o consumo de álcool. Quem tem acesso a esses dados? Onde são armazenados? Quem pode utilizá-los? Qual é exatamente o papel da empresa parceira? São perguntas básicas quando se trata de informações potencialmente sensíveis sobre saúde e comportamento. Não precisamos atribuir má-fé a uma empresa para reconhecer um conflito de interesses. É justamente porque os interesses são diferentes que existem regras para proteger a independência das políticas públicas.

    Governos de todos os lados precisam olhar para a experiência e para a literatura internacional —e também para o que já sabemos no Brasil. Se somos realmente sérios em enfrentar os danos relacionados ao álcool, precisamos reconhecer uma regra básica de saúde pública: a indústria do álcool —e aqueles que mantêm vínculos financeiros ou institucionais com ela— não deveriam participar da formulação, implementação ou avaliação das políticas destinadas a reduzir seus danos.

    TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/a-industria-do-alcool-pode-estar-a-frente-da-prevencao.shtml.

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