Brasil

    A grande transformação do atacado de cocaína

    A partir de 2016, o mercado global de cocaína entrou em expansão acelerada. A ONUDC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) estima que a produção tenha quase triplicado , de 1.400 para mais de 4.000 toneladas por ano. Leia mais (08/31/2026 - 07h00)

    Folha de S.Paulo
    31 de agosto de 2026 às 10:00
    A grande transformação do atacado de cocaína
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    É diretor de pesquisa no CNRS e professor titular da Sciences Po

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    A partir de 2016, o mercado global de cocaína entrou em expansão acelerada. A ONUDC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) estima que a produção tenha quase triplicado , de 1.400 para mais de 4.000 toneladas por ano.

    Entre 2016 e 2023, as apreensões na Europa se multiplicam por seis (Euda - Agência da União Europeia sobre Drogas). Na França , a pureza da droga no varejo passou de 45% para quase 80%, enquanto o preço caiu 25% (OFDT - Observatório Francês de Drogas e Tendências de Dependência). Qualidade em alta, oferta crescente e preços em queda impulsionaram o consumo mundial.

    Em Hong Kong, Japão e Coreia do Sul, as apreensões quintuplicaram entre 2016 e 2024 (dados: polícias, Justiça e alfândegas nacionais); na África , aumentaram mais de 20 vezes (ONUDC); na Austrália , triplicaram (Acic - Comissão Australiana de Inteligência Criminal).

    O Brasil? É não apenas a principal origem das apreensões de cocaína na Europa, desde 2019 (Euda), como um dos artífices dessa transformação.

    Em 2022, comecei a estudar a inserção internacional do PCC no tráfico de cocaína, da Bolívia à Europa, passando por diferentes países. Os primeiros resultados da pesquisa já estão no ar.

    Nosso principal achado é uma transformação radical no atacado de cocaína: surge uma "plataforma criminal" que concentra decisões, investe em qualidade, terceiriza operações e se torna global, como a Uber ou o AirBnb .

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    Mas essa plataforma não é digital. No seu centro há redes criminais dos Bálcãs, o PCC e poucas outras. Nas margens, operadores maiores ou menores na distribuição, sempre terceirizados, como os motoristas de aplicativo.

    Quanto mais a plataforma é usada pelos traficantes locais, mais indispensável se torna. Antes, o atacado no Brasil era voltado sobretudo ao consumo interno, organizado por famílias de elite local que compravam na fronteira, e revendiam a droga ao elo seguinte. Intermediários-proprietários, da amazônia ao Paraguai . O resultado era um mercado fragmentado, preços e qualidade heterogêneos, contatos restritos. Modelo táxi.

    No novo modelo, uma plataforma criminal de atacado, multiplicam-se contatos, profissionaliza-se a logística e abrem-se mercados. Gigantescas joint-ventures do crime podem comprar na fonte e entregar no mundo todo. No lugar de intermediários-proprietários, prestadores locais assumem todo o risco: numa apreensão, quem vai preso agora são caminhoneiros, pescadores, estivadores, pilotos, mergulhadores, mulas. Operadores financeiros, contadores para lavagem e advogados já são menos visíveis. Proprietários da droga e suas organizações criminais, invisíveis.

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    Com mais dinheiro, eles compram mais armas, mais corrupção e reinvestem mais: na infraestrutura da cocaína, mas também na finança, imóveis, empresas. O mercado ilícito cresce, portanto, menos por oferta ou demanda e mais por capacidade de intermediação.

    Enquanto isso, nossa Segurança faz na fachada uma guerra estéril contra operadores terceirizados, substituíveis, e, atrás da cortina de fumaça, aparecem escândalos seguidos de corrupção sistêmica, que funcionam para proteger os mercados ilegais.

    Essa mudança radical no atacado da cocaína de exportação, espinha dorsal dos mercados ilegais no Brasil, tem impactos diretos na nossa (in)segurança.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/gabriel-feltran/2026/08/a-grande-transformacao-do-atacado-de-cocaina.shtml.

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