A estupidificação da espécie
O progresso tecnológico avança enquanto o homem embrutece

Jornalista, comentarista de TV e radialista em Portugal, é formada em direito e autora de livros como 'Carta a um Jovem Decente'
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Deparei-me, há dias, com um vídeo surreal na Casa Branca que parecia uma cena de um filme de David Lynch. Enquanto Donald Trump , sentado na escrivaninha onde grandes presidentes fizeram História, dormia de cabeça inclinada, o negacionista responsável pela pasta da saúde, Robert F. Kennedy Jr. , anunciava, tremendo descontroladamente, o fim do calendário de vacinação aperfeiçoado e estudado há décadas pela melhor ciência.
Ao lado, remexia-se e afagava a barriga grávida a ativista Jayme Franklin, fundadora da marca The Conservateur, que pretende formar jovens mulheres conservadoras cristãs para cumprirem o papel pleno de mães, adotarem a modéstia sexual e rejeitarem o feminismo. Veio à minha memória o absurdo pronunciamento de março de 2020, quando Bolsonaro se referiu à Covid-19 como uma "gripezinha" e atacou as medidas de emergência sanitária, conduzindo o país a mais de 716 mil mortes oficiais.
Não sabia se ria ou se chorava, enquanto me perguntava: como chegamos aqui? Como tanta gente escolhe andar para trás —para a ignorância, para a boçalidade, para a doença, para a desumanização, para a menorização das mulheres… para a imbecilidade?

Fui em busca de respostas, estudar o que dizem antropólogos e geneticistas sobre a evolução da espécie humana, com a famosa ilustração na cabeça "A Marcha do Progresso", que mostra os estágios do primata até ao Homo sapiens sapiens , à qual eu acrescentaria, o novo homem estúpido do século 21, de celular na mão.
Não fui longe: os cientistas garantem que, em termos genéticos, a evolução da espécie não tem uma direção e não segue necessariamente "para a frente". Volto-me para os historiadores e sociólogos que estudaram momentos de colapsos e retrocessos civilizacionais e culturais. Veja-se o que aconteceu com o fim da Idade do Bronze; o desmoronar do mundo maia clássico no continente americano; a idade das trevas na Idade Média, depois das sofisticadas civilizações gregas e romanas antigas na Europa; ou a desumanização absoluta, no século 20, com o Holocausto nazista, o stalinismo na URSS ou o Khmer Vermelho no Camboja.
Não me restam muitas dúvidas: hoje, enquanto o progresso tecnológico avança a uma velocidade vertiginosa, com o digital e a inteligência artificial a trilharem um caminho desenfreado em direção sabe-se lá para onde, o homem embrutece e estupidifica, desprotegendo-se e atentando permanentemente contra os próprios interesses. Parece que à medida que nos afastamos da natureza, perdemos o instinto de autopreservação. Afinal, que outra espécie animal escolheria como líderes os elementos mais impreparados, egoístas e ignorantes?

Dou por mim a pensar nos meus quatro filhos entre os 12 e os 23 anos e o que os espera nos próximos tempos. (Sim, sou uma mulher progressista que leva muito a sério o seu papel de mãe. Não, isso não tem nada de contraditório.) Quando tinha a idade deles, o mundo parecia avançar, sem recuo, para o progresso e o bem comum: paz, democracia, conhecimento, desenvolvimento econômico. Hoje, o sentimento é agridoce. É preciso mesmo ser um atrevido otimista para continuar a ter esperança de que vai correr tudo bem.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mafalda-anjos/2026/08/a-estupidificacao-da-especie.shtml.

O presidente Donald Trump de olhos fechados ao lado do secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., durante anúncio de uma ordem executiva que reduz as recomendações federais de vacinação de crianças - Jim Watson/AFP · Jim Watson/AFP — Foto: UOL
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