Brasil

    A essencialidade do reator multipropósito para o futuro da medicina nuclear

    Em artigo à CNN Infra, Flávia Dornelas Kurkowski defende que reator reduzirá dependência externa de insumos usados em exames e tratamentos na medicina nuclear

    CNN Brasil
    16 de setembro de 2026 às 11:00
    A essencialidade do reator multipropósito para o futuro da medicina nuclear
    Foto: CNN Brasil

    A Medicina Nuclear (MN) é uma especialidade médica que utiliza radiação para diagnosticar e tratar doenças, além de auxiliar determinados procedimentos cirúrgicos. Enquanto grande parte dos métodos de imagem revela principalmente a anatomia, a MN permite observar o funcionamento do organismo, avaliando processos fisiológicos, metabólicos e moleculares. Assim, alterações funcionais podem ser identificadas antes mesmo que modificações estruturais se tornem visíveis.

    Na oncologia, um dos avanços mais relevantes dos últimos anos é a teranóstica , conceito que integra diagnóstico e tratamento. A estratégia consiste em identificar, por meio da imagem, um alvo presente nas células tumorais e utilizar esse mesmo alvo para conduzir a terapia até o tumor.

    Para que exames e tratamentos como esses sejam possíveis, existe uma complexa cadeia de produção e distribuição de radiofármacos (RFs), ainda pouco conhecida fora do setor da saúde e, no Brasil, parcialmente dependente do mercado internacional.

    • IA · • IA
    • IA · • IA — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Os RFs são substâncias que contêm um radionuclídeo, geralmente associado a uma molécula capaz de interagir com determinado processo biológico. Uma vez administrados ao paciente, sua distribuição pelo organismo pode ser identificada por equipamentos específicos, como a gama-câmara e a tomografia por emissão de pósitrons associada à tomografia computadorizada (PET/CT), também conhecida como PET-Scan.

    Há, porém, uma característica que diferencia esses produtos dos medicamentos convencionais: sua radioatividade diminui continuamente. Cada radionuclídeo possui uma meia-vida física, período necessário para que sua atividade radioativa seja reduzida à metade.

    O tecnécio-99m, radionuclídeo mais utilizado em exames diagnósticos de MN, possui meia-vida de aproximadamente 6 horas e é empregado na avaliação de diferentes órgãos e sistemas. Nos serviços de MN, é obtido a partir de geradores de molibdênio-99/tecnécio-99m. Produzido em reatores nucleares, o molibdênio-99 tem meia-vida de aproximadamente 66 horas e, ao decair, origina o tecnécio-99m utilizado nos exames.

    O tempo, portanto, é um componente fundamental dessa cadeia. Produção, processamento, controle de qualidade, transporte e distribuição precisam ser cuidadosamente coordenados enquanto a atividade radioativa diminui. Quando o material depende de produção internacional, atrasos ou interrupções, por exemplo, no transporte, podem comprometer o atendimento de pacientes a milhares de quilômetros do local de origem.

    Por isso, a produção nacional de radionuclídeos ultrapassa os limites de uma discussão tecnológica: é também uma questão de segurança e planejamento em saúde.

    A importância dos radionuclídeos produzidos em reatores aumentou com a expansão das terapias direcionadas. Entre eles está o lutécio-177, empregado no tratamento de determinados tumores neuroendócrinos e do câncer de próstata avançado.

    No câncer de próstata, uma das estratégias utiliza como alvo o antígeno de membrana específico da próstata (PSMA), proteína frequentemente expressa pelas células tumorais. O PET/CT com PSMA permite identificar se as lesões apresentam esse alvo. Em pacientes selecionados, o PSMA funciona como um “endereço molecular”, orientando a chegada do lutécio-177 às células doentes .

    A eficácia dessa estratégia foi demonstrada no estudo de fase III VISION. Em pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração e tumores positivos para PSMA, o tratamento com lutécio-177-PSMA-617, associado ao cuidado padrão, proporcionou ganho de sobrevida. Mais recentemente, a Food and Drug Administration (FDA) , agência reguladora norte-americana, ampliou sua indicação para uma etapa mais precoce da doença metastática.

    A demanda potencial é significativa. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano no Brasil no triênio 2026–2028 . Parte desses pacientes poderá necessitar de PET/CT com PSMA ou terapias com lutécio-177 ao longo da evolução da doença. Somam-se a eles homens diagnosticados anteriormente que permanecem em acompanhamento e podem apresentar recorrência ou progressão. Dimensionar a necessidade de MN, portanto, exige considerar toda a trajetória da doença, e não apenas os novos casos anuais.

    É nesse cenário que se insere o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), sob responsabilidade da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) , em Iperó, no interior de São Paulo. A infraestrutura será estratégica para o país, o projeto reúne diferentes finalidades, entre elas a produção de radionuclídeos, a pesquisa científica, o desenvolvimento tecnológico e a formação de profissionais especializados.

    Na saúde, uma de suas principais contribuições será ampliar a capacidade brasileira de produzir radionuclídeos importantes para a MN, como o molibdênio-99, precursor do tecnécio-99m, o iodo-131 e o lutécio-177.

    Segundo a Cnen, o RMB foi projetado para produzir radionuclídeos destinados a mais de 30 tipos de RFs. A instituição estima ainda que o empreendimento poderá ampliar significativamente a oferta de procedimentos de MN e gerar economia superior a US$ 15 milhões anuais em importações .

    O alcance do RMB vai além da produção de radionuclídeos. Um reator multipropósito constitui uma plataforma para pesquisa, inovação e formação de recursos humanos, capaz de estimular o desenvolvimento de novos RFs e tecnologias e aproximar universidades, hospitais, centros de pesquisa e empresas.

    Essa infraestrutura torna-se especialmente relevante diante do envelhecimento da população brasileira e do avanço de uma medicina cada vez mais orientada pelas características moleculares das doenças. Câncer, enfermidades cardiovasculares e doenças neurodegenerativas estão entre as condições que ganham importância nesse cenário e nas quais a MN possui aplicações diagnósticas e terapêuticas.

    O RMB deve, portanto, ser compreendido como parte de uma estratégia de longo prazo para a ciência e a saúde brasileiras. Produzir radionuclídeos no país significa reduzir a vulnerabilidade diante de uma cadeia internacional sujeita ao tempo e a interrupções logísticas, ampliar a autonomia tecnológica, estimular a pesquisa e criar condições para que os avanços da MN cheguem aos pacientes com maior segurança, previsibilidade e sustentabilidade.

    * Flávia Dornelas Kurkowski é Médica Nuclear no Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul

    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/infra/a-essencialidade-do-reator-multiproposito-para-o-futuro-da-medicina-nuclear/.

    Imagem 1

    • IA · • IA — Foto: CNN Brasil

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)