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    A espiral de Ulam e seus primos

    Em 1963, o matemático Stanislaw Ulam teve a ideia de escrever os números naturais numa espiral (o 1 no centro; do 2 até o 9, formando um quadrado em volta dele; do 10 ao 25 formando um quadrado em volta desse; e assim sucessivamente) e marcar os números primos na espiral com um pequeno círculo. O que ele notou foi que a figura obtida desse modo apresenta diversas retas contendo uma quantidade surpreendentemente grande de números primos. Leia mais (08/18/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    19 de agosto de 2026 às 02:00
    A espiral de Ulam e seus primos
    Foto: Folha de S.Paulo

    Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, ganhador do Prêmio Louis D., do Institut de France

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    O matemático Stanislaw Ulam (1909-1984) - Los Alamos National Laboratory · Los Alamos National Laboratory
    O matemático Stanislaw Ulam (1909-1984) - Los Alamos National Laboratory · Los Alamos National Laboratory — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em 1963, o matemático Stanislaw Ulam teve a ideia de escrever os números naturais numa espiral (o 1 no centro; do 2 até o 9, formando um quadrado em volta dele; do 10 ao 25 formando um quadrado em volta desse; e assim sucessivamente) e marcar os números primos na espiral com um pequeno círculo. O que ele notou foi que a figura obtida desse modo apresenta diversas retas contendo uma quantidade surpreendentemente grande de números primos.

    As retas na espiral de Ulam correspondem a sequências da forma 4n²+bn+c em que b e c são inteiros fixados e n=1,2,3,.... O coeficiente b indica a orientação da reta: se b é ímpar, a reta é vertical ou horizontal; e se b é par, a reta é diagonal, com inclinação de 45º para cima ou para baixo.

    Algumas dessas sequências não contêm nenhum primo: é o caso de 4n²+8n+3, já que essa expressão sempre pode ser escrita como um produto (2n+1)×(2n+3). Por outro lado, a observação de Ulam significa que para alguns valores dos coeficientes b e c a sequência 4n²+bn+c contém muito mais primos do que seria de se esperar. Como explicar isso?

    Espiral de Ulam - Reprodução · Reprodução
    Espiral de Ulam - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em 1923, os britânicos Godfrey H. Hardy e John E. Littlewood publicaram um trabalho que oferece uma possível explicação. Eles conjecturaram (ou seja, eles afirmaram, sem provar) que para toda sequência 4n²+bn+c existe uma constante A tal que a quantidade de números primos na sequência menores do que um dado N grande é aproximadamente igual a A √N/logN. Então, quanto maior for o A, mais primos existem na respectiva reta.

    Se os números primos estivessem distribuídos de forma totalmente aleatória entre os números naturais, a constante A seria igual a 1/2 em todos os casos, ou seja, para todos os valores de b e c. Mas não é isso que acontece: em diversos casos o A é bem maior do que 1/2, o que quer dizer que a quantidade de primos nas retas correspondentes está muito acima do habitual. Esse é precisamente o tipo de comportamento observado por Ulam.

    Um belo exemplo é 4n²−2n+41, que corresponde a uma das retas mais visíveis na espiral de Ulam. O respectivo valor de A é cerca de 3,3 e, portanto, essa reta contém mais de 6 vezes mais primos do que uma reta típica na espiral.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Muito antes disso, em 1732, Leonard Euler tinha observado que o polinômio q(m)= m²−m+41 parece conter muitos números primos. De fato, Euler provou que q(m) é primo para todos os valores de m de 1 até 40. Isso não é verdade para m=41, e a partir daí o q(m) tanto pode ser primo como composto.

    Uma observação muito curiosa é que, se considerarmos apenas os valores pares de m, ou seja, se consideramos m=2n, o polinômio de Euler se transforma, precisamente, na sequência 4n²−2n+41 de que estávamos falando antes. O que isso sugere é que a intuição de Euler estava totalmente correta: o polinômio q(m) que ele propôs é, realmente, um dos que contêm mais primos!

    Pelo menos é o que se acredita: a maior parte das coisas que contei antes depende da conjectura de Hardy e Littlewood, a qual não está provada. Aliás, muitos outros problemas relacionados, alguns deles até mais simples, também continuam em aberto.

    Imagem mostra um padrão simétrico composto por pontos azuis distribuídos em linhas diagonais e verticais sobre fundo branco, formando uma estrutura complexa e repetitiva.
    Imagem mostra um padrão simétrico composto por pontos azuis distribuídos em linhas diagonais e verticais sobre fundo branco, formando uma estrutura complexa e repetitiva. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por exemplo, não sabemos se os primos da forma n²+1 formam um conjunto finito ou infinito. Na verdade, não sabemos se existe alguma sequência polinomial, de grau 2 ou maior, contendo uma quantidade infinita de números primos. O que, sim, sabemos é que que não existe nenhum polinômio que produza apenas números primos.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloviana/2026/08/a-espiral-de-ulam-e-seus-primos.shtml.

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