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    A escola ainda faz a pergunta errada sobre inteligência artificial

    Há poucos meses, o debate escolar brasileiro ainda parecia girar em torno de uma pergunta: como impedir que o aluno use inteligência artificial para colar ? Em agosto de 2026, essa pergunta já envelheceu. As ferramentas deixaram de apenas redigir textos. Elas pesquisam, organizam fontes, produzem apresentações, programam e executam sequências inteiras de trabalho. O problema não é mais detectar uma resposta. É saber o que o estudante compreendeu, decidiu e consegue defender. A edição mais recente da pesquisa TIC Educação mostrou que sete em cada dez alunos do ensino médio já usavam IA em traba

    Folha de S.Paulo
    27 de agosto de 2026 às 01:00
    A escola ainda faz a pergunta errada sobre inteligência artificial
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    Alunos da Escola Estadual Milton da Silva Rodrigues (Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo), em atividade na Redação SP, plataforma desenvolvida pela Secretaria de Educação que utiliza inteligência artificial para corrigir textos produzid
    Alunos da Escola Estadual Milton da Silva Rodrigues (Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo), em atividade na Redação SP, plataforma desenvolvida pela Secretaria de Educação que utiliza inteligência artificial para corrigir textos produzid — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Doutorando em matemática pura no IME-USP, professor de matemática e desenvolvedor de sistemas de inteligência artificial. É autor de “Inteligência Artificial Generativa para Professores”

    Há poucos meses, o debate escolar brasileiro ainda parecia girar em torno de uma pergunta: como impedir que o aluno use inteligência artificial para colar ? Em agosto de 2026, essa pergunta já envelheceu. As ferramentas deixaram de apenas redigir textos. Elas pesquisam, organizam fontes, produzem apresentações, programam e executam sequências inteiras de trabalho. O problema não é mais detectar uma resposta. É saber o que o estudante compreendeu, decidiu e consegue defender. A edição mais recente da pesquisa TIC Educação mostrou que sete em cada dez alunos do ensino médio já usavam IA em trabalhos escolares, mas só 32% diziam ter recebido orientação. Desde então, a capacidade das ferramentas aumentou e a distância entre uso e formação ficou ainda maior. O próprio referencial do MEC desaconselhou o uso de detectores automáticos como base para punições, e o Conselho Nacional de Educação avançou com diretrizes que preservam a supervisão humana e restringem aplicações de alto risco. A discussão normativa amadureceu. A prática escolar, porém, ainda está presa à lógica do flagrante.

    Há ainda uma tentação equivocada: escrever políticas em torno do nome da ferramenta da vez. Produtos mudam em semanas, enquanto currículos e regulamentos levam anos. A escola precisa definir princípios que sobrevivam à próxima atualização: transparência, verificação, proteção de dados, responsabilidade e evidência de aprendizagem. Ao acompanhar a formação de cerca de cinquenta professores em contextos institucionais diferentes, observei que a variável mais importante não era a marca da ferramenta, o orçamento ou a senioridade da equipe. Era a postura da instituição. Onde a IA foi tratada como competência a desenvolver, professores passaram a compartilhar experiências, revisar critérios e desenhar tarefas em que o aluno precisava mostrar processo, justificar escolhas e verificar resultados. Onde foi tratada apenas como transgressão, o uso não desapareceu. Tornou-se clandestino, menos discutido e mais difícil de orientar. A consequência prática é que a unidade mais produtiva de mudança não é uma palestra para a escola inteira. É a área disciplinar. Em matemática, usar IA bem exige explicitar hipóteses, testar exemplos e conferir se o resultado faz sentido. Em história, exige comparar fontes e identificar ausências. Em linguagens, justificar escolhas de estrutura, voz e revisão. Em ciências, distinguir explicação plausível de procedimento reproduzível. Uma política única de "permitido ou proibido" não consegue representar essas diferenças. Também precisamos redesenhar a evidência de aprendizagem. Histórico de versões, registros de fontes, etapas presenciais, defesa oral, comentários sobre erros e decisões tomadas durante o processo revelam mais do que um detector. Isso não significa transformar cada aluno em suspeito permanente. Significa avaliar aquilo que realmente interessa: compreensão, julgamento, autoria e capacidade de corrigir a própria resposta.

    Como utilizar a IA nos estudos para os vestibulares e o Enem
    Como utilizar a IA nos estudos para os vestibulares e o Enem — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A desigualdade educacional pode crescer justamente aqui. Escolas com mais recursos tendem a ensinar seus alunos a usar, contestar e auditar sistemas de IA. Redes que r espondam apenas com bloqueio e vigilância correm o risco de formar estudantes que usam as mesmas ferramentas, mas sem linguagem para reconhecer limites, documentar decisões ou assumir responsabilidade. A pergunta certa já não é "o aluno usou IA?". É "o que este trabalho prova que ele sabe, que escolhas fez e que evidências consegue sustentar?". Mudar a pergunta é mais difícil do que comprar um detector ou publicar uma norma. Também é o único caminho capaz de preservar aprendizagem real quando a máquina já participa do trabalho.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/a-escola-ainda-faz-a-pergunta-errada-sobre-inteligencia-artificial.shtml.

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    Alunos da Escola Estadual Milton da Silva Rodrigues (Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo), em atividade na Redação SP, plataforma desenvolvida pela Secretaria de Educação que utiliza inteligência artificial para corrigir textos produzid — Foto: Folha de S.Paulo

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