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    A economia global e a arte de viver perigosamente

    Os últimos dias nos lembraram de uma das duas principais realidades econômicas da atualidade: o presidente dos Estados Unidos é um agente de destruição. Isso, porém, é compatível com a outra realidade: apesar das turbulências e dos choques de nossa época, a economia mundial continua sendo uma poderosa máquina de crescimento, impulsionada por inovações notáveis, operações financeiras que envolvem riscos e grandes volumes de dívida. Isso pode durar? O motivo para acreditar que sim é que o crescimento tem sido a característica dominante da economia global desde meados do século passado. Ainda ass

    Folha de S.Paulo
    14 de outubro de 2026 às 20:07
    A economia global e a arte de viver perigosamente
    Ex-presidente dos Estados Unidos sobe escada para avião presidencial, com punho direito erguido. Símbolo presidencial visível na lateral da aeronave. — Foto: Folha de S.Paulo

    Comentarista-chefe de economia no Financial Times, doutor em economia pela London School of Economics

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    Donald Trump faz gesto ao embarcar no Air Force One em Las Vegas - Evan Vucci - 14.out.26/Reuters · Evan Vucci - 14.out.26/Reuters
    Donald Trump faz gesto ao embarcar no Air Force One em Las Vegas - Evan Vucci - 14.out.26/Reuters · Evan Vucci - 14.out.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Os últimos dias nos lembraram de uma das duas principais realidades econômicas da atualidade: o presidente dos Estados Unidos é um agente de destruição. Isso, porém, é compatível com a outra realidade: apesar das turbulências e dos choques de nossa época, a economia mundial continua sendo uma poderosa máquina de crescimento, impulsionada por inovações notáveis, operações financeiras que envolvem riscos e grandes volumes de dívida. Isso pode durar? O motivo para acreditar que sim é que o crescimento tem sido a característica dominante da economia global desde meados do século passado. Ainda assim, precisamos lembrar que crescimento é uma coisa; crescimento estável é outra, bem diferente.

    Qual é, então, a mais recente atrocidade de Donald Trump ? Primeiro, ele iniciou uma guerra contra o Irã sem ter um plano, o que elevou os preços do diesel nos Estados Unidos e no mundo. Depois, há poucos dias, fez um acordo com Vladimir Putin para liberar diesel russo nos mercados globais, violando as sanções impostas após a invasão ilegal da Ucrânia por Putin. Trump também disse a Kiev que interrompesse os ataques às refinarias de petróleo russas e ameaçou cortar o compartilhamento de informações de inteligência com a Ucrânia e o acesso do país a armas fabricadas nos Estados Unidos. Esse "acordo" é ao mesmo tempo insensato e perverso: insensato porque é pequeno demais para reduzir significativamente os preços do diesel; perverso porque está disposto a sacrificar um país que luta heroicamente para se libertar da tirania.

    A atual política dos Estados Unidos não é apenas imprudente e imoral. Também é uma das causas da imprevisibilidade mundial. O mais recente relatório WEO (Perspectivas da Economia Mundial), do FMI (Fundo Monetário Internacional), começa com a seguinte observação de Silvana Tenreyro, a nova economista-chefe da instituição: "Em menos de sete anos, a economia global foi submetida a uma sequência excepcional de acontecimentos". No entanto, todos esses choques, com exceção da pandemia, foram provocados por seres humanos —ou, talvez, por "homens fortes". Os demais foram a guerra na Ucrânia, a guerra tarifária e a guerra no Oriente Médio. Vladimir Putin iniciou a primeira, em 2022. Trump, é claro, deu início às outras duas.

    Veja fotos do encontro de Trump com CEOs de tecnologia dos EUA
    Veja fotos do encontro de Trump com CEOs de tecnologia dos EUA — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Esses choques, como afirma Tenreyro, "testaram a resiliência das famílias, das empresas, dos mercados financeiros e dos governos. Individualmente, cada um desses grandes acontecimentos teria sido considerado improvável. A confluência de todos eles em um período tão curto é ainda mais extraordinária". Apesar disso, as projeções do WEO para o crescimento neste ano e no próximo, de 3,1% e 3,4%, respectivamente, permanecem "praticamente inalteradas em relação a abril", apesar de as interrupções no fornecimento de energia terem se mostrado mais persistentes do que se esperava na época. A inflação global, porém, deve chegar a 4,7% neste ano, em razão da alta dos preços das commodities, e a 4,1% em 2027. Felizmente, "espera-se que o repasse para a inflação subjacente seja limitado".

    As explicações para essa resiliência são conhecidas. Entre elas está a adaptação dos fluxos de exportação e importação, que reduziram a dependência do comércio direto entre Estados Unidos e China. Mais recentemente, porém, os principais fatores têm sido a flexibilidade do mercado global de energia, discutida aqui na semana passada, e o boom de investimentos impulsionado pela IA ( inteligência artificial ). Nenhum dos dois, contudo, tem continuidade garantida.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Como observa Nick Butler, os estoques de petróleo bruto e derivados estão baixos após seis meses de redução. Além disso, "as exportações de derivados, como diesel e querosene de aviação, do Golfo continuam mínimas". Também estão em risco os fornecimentos de nafta, ureia e GNL (gás natural liquefeito), este último especialmente importante para a Europa.

    O boom de investimentos em IA também concentra riscos. Mesmo que a tecnologia se mostre bem-sucedida, o ritmo de crescimento dos investimentos deverá parar em algum momento, se não passar a cair. Além disso, é possível que a IA não produza os resultados financeiros esperados na escala prevista.

    Outras fragilidades também são evidentes, especialmente nas contas públicas. Apesar do forte aumento das taxas de juros reais e nominais após a pandemia, a maioria das grandes economias continua registrando déficits fiscais primários significativos, isto é, antes do pagamento de juros. A situação dos Estados Unidos se destaca: a previsão é de déficit fiscal primário equivalente a 4,8% do PIB neste ano, com títulos do Tesouro de curto prazo representando 58% do endividamento bruto e prazo médio de vencimento de apenas 5,9 anos.

    O WEO destaca corretamente a importância de reconstruir a margem de manobra fiscal dos governos. A boa notícia é que, nas atuais circunstâncias, o impacto negativo de um ajuste fiscal estrutural provavelmente será compensado por taxas de juros reais e nominais mais baixas. Mas também será essencial corrigir os desequilíbrios nas contas correntes globais. Para isso, será necessário, finalmente, incluir a China no esforço.

    O WEO destaca outros riscos de queda, entre eles o agravamento das guerras em curso, as ameaças cibernéticas —provavelmente ampliadas pela IA— e as catástrofes climáticas. Não se pode descartar uma quebra do mercado acionário nem um colapso dos investimentos relacionados à IA, caso os retornos da tecnologia decepcionem.

    Entre os riscos de alta para a economia está um avanço ainda mais rápido da IA, embora isso também possa provocar consequências sociais devastadoras. Outra possibilidade favorável seria uma aceleração da transição energética, já que os acontecimentos recentes reforçam a falta de confiabilidade dos combustíveis fósseis. Em razão de sua localização geográfica, muitos países continuarão expostos a esse problema.

    O WEO observa que a capacidade de aproveitar a IA e atender às necessidades energéticas de forma confiável será crucial para as perspectivas de crescimento. Infelizmente, os países mais pobres do mundo são particularmente vulneráveis nos dois aspectos. Por isso, o relatório teme, com razão, que seus padrões de vida continuem se distanciando dos registrados nos países mais ricos.

    Seria bom acreditar que o mundo se tornará menos suscetível a choques. Mas provavelmente não será assim. A melhor resposta é fortalecer os fundamentos econômicos, sobretudo a flexibilidade e o dinamismo da economia, além da segurança energética.

    Nesse contexto, como observa o WEO, é essencial que a ajuda às pessoas vulneráveis a choques seja direcionada e temporária. Chegou ao fim o tempo de distribuir dinheiro público sem grandes restrições. Seria bom se os choques também parassem. Infelizmente, diante dos líderes que temos, eu não apostaria nisso.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/martinwolf/2026/10/a-economia-global-e-a-arte-de-viver-perigosamente.shtml.

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    Donald Trump faz gesto ao embarcar no Air Force One em Las Vegas - Evan Vucci - 14.out.26/Reuters · Evan Vucci - 14.out.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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