Brasil

    A diferença entre um dado e um diagnóstico

    Em frente a uma loja fechada da Casas Bahia , Flávio Bolsonaro gravou um vídeo de campanha para criticar o governo Lula . A cena deu uma imagem simples a um argumento repetido pela oposição: o número de empresas em recuperação judicial cresceu 65,8% entre 2023 e 2026, e esse aumento seria um retrato da má condução econômica do país. Leia mais (08/25/2026 - 17h00)

    Folha de S.Paulo
    25 de agosto de 2026 às 20:00
    A diferença entre um dado e um diagnóstico
    Fachada da loja Casas Bahia com letreiro grande em azul, vermelho e branco. Homem caminha na calçada em frente, carregando mala de rodinhas. Fachada tem azulejos azuis e vidro refletindo luz do dia. — Foto: Folha de S.Paulo

    Economista pela UFPE e especialista em gestão pública no Insper. Estudou economia comportamental na Warwick University (Reino Unido) e é associada do Livres

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    Loja da Casas Bahia em São Bernardo do Campo fechada após a empresa informar um prejuízo de R$ 10 bi no segundo trimestre deste ano e pedir recuperação judicial - Felipe Iruatã /Folhapress · Felipe Iruatã /Folhapress
    Loja da Casas Bahia em São Bernardo do Campo fechada após a empresa informar um prejuízo de R$ 10 bi no segundo trimestre deste ano e pedir recuperação judicial - Felipe Iruatã /Folhapress · Felipe Iruatã /Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em frente a uma loja fechada da Casas Bahia , Flávio Bolsonaro gravou um vídeo de campanha para criticar o governo Lula . A cena deu uma imagem simples a um argumento repetido pela oposição: o número de empresas em recuperação judicial cresceu 65,8% entre 2023 e 2026, e esse aumento seria um retrato da má condução econômica do país.

    Esse debate me levou de volta às primeiras aulas de microeconomia na faculdade. Até então, eu associava o curso a temas como inflação , juros , emprego e mercado financeiro . Foi ali que entendi que a economia oferecia, sobretudo, uma forma de olhar para as escolhas em um mundo de recursos escassos.

    Na prática, estava desenvolvendo as ferramentas para investigar as causas de um resultado, comparar alternativas e observar como uma escolha repercutia para além de seu efeito mais imediato.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No caso das recuperações judiciais, investigar as causas exige reconstruir a cadeia que liga a condução econômica do governo às dificuldades das empresas : os estímulos fiscais elevam as pressões inflacionárias, enquanto a dificuldade de cumprir as metas fiscais e estabilizar a dívida aumenta a incerteza sobre as contas públicas e eleva os prêmios de risco.

    Essa combinação dificulta a redução da Selic ; assim, juros mais altos, por sua vez, encarecem as dívidas, restringem o crédito e reduzem o consumo financiado, pressionando empresas endividadas e setores mais dependentes de financiamento.

    Entretanto, esses efeitos atingem negócios em diferentes condições de endividamento, gestão e concorrência. Aqueles já fragilizados ou de baixa produtividade passam pelo aperto monetário com menor margem de manobra.

    Foi nesse sentido que a ombudsman Alexandra Moraes observou, aqui na Folha , que, especificamente, as Casas Bahia e Marabraz estavam "enroladas sobretudo por mérito próprio". Ou seja, o número revela uma tensão geral, mas explicar cada crise exige comparar mecanismos e causas concorrentes.

    Assim, descobrir se um fator de fato produziu determinado resultado exige reconstruir o mecanismo e considerar outras possíveis explicações. É esse esforço que economistas chamam de identificação de causalidade.

    O aumento das recuperações revela uma tensão financeira, mas atribuir cada caso à política econômica exige entender por que empresas e setores submetidos ao mesmo ambiente chegaram a resultados distintos.

    Esse cuidado com o diagnóstico também deve acompanhar a escolha de políticas públicas. Dinheiro, tempo, capacidade técnica e atenção política são limitados; por isso, demonstrar que uma política produz benefícios ainda não permite determinar se ela é a melhor opção. Um programa de qualificação pode elevar a renda dos participantes e, ao mesmo tempo, gerar retorno inferior ao de outra intervenção financiada com os mesmos recursos, isto é, o custo de oportunidade.

    É preciso, além de comparar alternativas, acompanhar o que acontece para além do benefício direto. Por exemplo, uma barreira comercial pode preservar empregos em determinada indústria e, simultaneamente, encarecer máquinas e insumos utilizados por outras empresas.

    Os empregos protegidos têm endereço; os negócios que deixaram de existir são mais difíceis de identificar. Observar como preços, empresas e consumidores reagem em mercados relacionados é parte da análise de equilíbrio geral.

    Talvez nós, economistas, ainda possamos comunicar melhor esse modo de pensar. Ainda que a política fiscal do governo Lula mereça escrutínio e críticas, quando uma empresa mal gerida vira símbolo do fracasso nacional, o debate substitui a investigação dos problemas do país por uma narrativa conveniente. Comunicar melhor essas ferramentas pode tornar as críticas mais precisas e aumentar a chance de que as respostas abordem as causas do problema.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/deborah-bizarria/2026/08/a-diferenca-entre-um-dado-e-um-diagnostico.shtml.

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    Loja da Casas Bahia em São Bernardo do Campo fechada após a empresa informar um prejuízo de R$ 10 bi no segundo trimestre deste ano e pedir recuperação judicial - Felipe Iruatã /Folhapress · Felipe Iruatã /Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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