Brasil

    A crise do Supremo não termina com as urnas

    Especialistas apontam que cortes decidem sob influência ideológica; no Brasil, ministros acumulam funções

    UOL
    14 de setembro de 2026 às 22:00
    A crise do Supremo não termina com as urnas
    Ministros sentados em semicírculo no plenário do Supremo Tribunal Federal, com público observando. Bandeira do Brasil e símbolos oficiais ao fundo. — Foto: UOL

    Esta coluna é uma parceria da Folha com o Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV Cepesp).

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Sessão plenária do STF, sob a presidência do ministro Edson Fachin - Pedro Ladeira - 09.set.2026/Folhapress · Pedro Ladeira - 09.set.2026/Folhapress
    Sessão plenária do STF, sob a presidência do ministro Edson Fachin - Pedro Ladeira - 09.set.2026/Folhapress · Pedro Ladeira - 09.set.2026/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Professor da FGV RI, pesquisador do FGV Cepesp e doutor em ciência política pela USP

    Há cerca de três décadas, o campo de "judicial politics" vem mostrando que juízes constitucionais agem politicamente, mas parte do debate público parece se esforçar para ignorá-lo. Negar tal comportamento leva a depositar falsas esperanças no próprio Judiciário para combater seus vícios e afastar qualquer voto de confiança nos representantes eleitos.

    Desde o trabalho de Spaeth e Segal, especialistas reuniram evidências de que decisões das cortes estão sujeitas ao viés ideológico dos juízes. Não à toa, governos escolhem magistrados ideologicamente alinhados para que, depois de adquirirem independência, tomem decisões favoráveis.

    Posse do ministro Edson Fachin como presidente do STF
    Posse do ministro Edson Fachin como presidente do STF — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Juízes constitucionais também agem com estratégia. Para alcançar suas preferências, precisam do apoio do colegiado. Por isso, formam coalizões dentro da corte em vez de negociar a cada nova decisão.

    Geralmente, cortes evitam entrar em conflito com governos. Para isso, selecionam prioridades, atrasam processos e seguem a maioria legislativa para evitar represálias. Em situações pontuais, buscam atender às paixões públicas do momento. Como governos podem ser punidos nas urnas , ter a opinião pública como aliada representa proteção.

    A newsletter sobre o mundo jurídico exclusiva para assinantes da Folha

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    É claro que isso não ocorre a toda hora, porque democracias costumam limitar oportunidades de atuação política dos juízes. Em alguns casos, nem é permitido ao Judiciário invalidar leis incompatíveis com a Constituição, como na Holanda , Reino Unido , Nova Zelândia e Suíça . Em outros, políticos preferem conviver com uma atuação já limitada dos juízes a arcar com os custos de reformas.

    No Brasil, ao contrário, os supremos têm muitas oportunidades para agir politicamente. Não bastou ter demasiadas atribuições, poder aceitar demandas de múltiplos atores e tomar decisões individuais. Os ministros resolveram inventar novos papéis, como conduzir as próprias investigações de ofício e microgerir inquéritos. A crise só eclodiu porque usaram tamanho poder para interferir nas vidas uns dos outros.

    E por que agem assim? Porque são elevados os custos para que políticos eleitos imponham limites. Independência exacerbada gera irresponsabilidade.

    Não é possível combater abusos no Judiciário sem reformas que sejam feitas por representantes eleitos. Dificilmente juízes irão se autolimitar, pois isso significaria abrir mão de poder. É bem verdade que líderes autoritários buscam retirar poder de instituições como o Judiciário. Mas governos democráticos também procuram impor limites. O Reino Unido não deixou de ser uma democracia quando, em 2022, proibiu cortes de revisar a dissolução do Parlamento.

    Em meio à crise, não veremos solução factível por ora. Parte da opinião pública costuma comprar o argumento de juízes que acusam políticos de "atacar" as instituições, mesmo quando reformas buscam limitar irresponsabilidades.

    Se os custos de reformar já são elevados, a dificuldade será ainda maior agora, com candidatos preocupados com sua sobrevivência eleitoral. A crise pode até dar um tempo, mas sem reformas ela voltará.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/voto-a-voto/2026/09/a-crise-do-supremo-nao-termina-com-as-urnas.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Sessão plenária do STF, sob a presidência do ministro Edson Fachin - Pedro Ladeira - 09.set.2026/Folhapress · Pedro Ladeira - 09.set.2026/Folhapress — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)