Brasil

    A crise do Judiciário também passa pela advocacia

    O silêncio da OAB sobre parentes de magistrados enfraquece a igualdade profissional e a confiança na Justiça

    UOL
    24 de setembro de 2026 às 08:00
    A crise do Judiciário também passa pela advocacia
    Estátua da Justiça em pedra branca com venda nos olhos, sentada, parcialmente obstruída por montes de terra vermelha em primeiro plano. Vegetação e céu com nuvens ao fundo. — Foto: UOL

    Maria Vitória Ramos e Bruno Morassutti, cofundadores da Fiquem Sabendo, abordam transparência e acesso à informação pública

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Obras na praça dos Três Poderes, em Brasília, com a estátua da Justiça ao fundo - Sergio Lima - 9.set.26/AFP · Sergio Lima - 9.set.26/AFP
    Obras na praça dos Três Poderes, em Brasília, com a estátua da Justiça ao fundo - Sergio Lima - 9.set.26/AFP · Sergio Lima - 9.set.26/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Não há uma solução fácil e rápida para a crise de legitimidade institucional do Poder Judiciário brasileiro. Embora as atenções estejam atualmente focadas –com justo motivo– no STF (Supremo Tribunal Federal), para o qual já sugerimos uma série de medidas estruturais, ele não é o único responsável por termos chegado a esta situação.

    Como já foi dito por nosso colega de Folha Conrado Hübner Mendes, não se faz "magistocracia" sem a complacência da advocacia . De fato, considerando a quantidade de notícias e informações já disponíveis ao público sobre casos de tráfico de influência envolvendo parentes de magistrados, é ensurdecedor o silêncio e a inércia da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) sobre o assunto. Mesmo antes do escândalo do Banco Master, situações pouco explicadas (e explicáveis) envolvendo parentes de juízes são quase que rotineiras nos processos disciplinares analisados pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

    Não faz sentido proibir apenas os juízes de atuar em casos envolvendo parentes ou seus escritórios e permitir que esses mesmos parentes advoguem sem qualquer restrição nos tribunais onde trabalham seus pais, cônjuges e irmãos. Da mesma forma, ofende o bom senso fingir que o problema se resolve simplesmente pela atuação de outro advogado do mesmo escritório do parente do magistrado. De fato, se o problema já é, por si só, grave em pequenas cidades do interior do país, a situação se agrava nos tribunais superiores, onde estão em jogo não apenas o resultado de um processo, mas também a dignidade e a legitimidade do sistema de Justiça brasileiro.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Ainda que seja notória a dificuldade institucional de discutir questões sensíveis como essa, a OAB possui exemplos de que tem a capacidade de discutir assuntos difíceis. Recentemente, por exemplo, a OAB-SP apresentou uma proposta para reforma do Poder Judiciário que, dentre outros aspectos, defendeu a adoção de um código de ética para os tribunais superiores. Assinada por mais de um milhão de pessoas, inclusive por ex-integrantes do próprio STF, a proposta solicita regras que assegurem a isonomia, exijam transparência e vedem a participação em reuniões privadas.

    Concordamos e apoiamos a proposta, porém, assim como a magistratura, precisamos também de um código de ética capaz de impedir que a advocacia, uma função essencial à Justiça, seja instrumentalizada por interesses escusos e por organizações criminosas. Além de prejudicar a própria credibilidade da profissão e do sistema judiciário brasileiro perante a nossa sociedade, essa "advocacia de acesso" também prejudica a própria classe dos advogados, que, em sua esmagadora maioria, não possui parentes em cargos públicos para explorar o prestígio.

    Uma advocacia verdadeiramente independente não pode depender de sobrenomes, de relações familiares ou de portas que não estão abertas aos demais profissionais. A mesma coragem que se exige do Judiciário para rever seus privilégios deve ser exigida da advocacia para enfrentar seus próprios conflitos de interesse.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/transparencia-publica/2026/09/a-crise-do-judiciario-tambem-passa-pela-advocacia.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Obras na praça dos Três Poderes, em Brasília, com a estátua da Justiça ao fundo - Sergio Lima - 9.set.26/AFP · Sergio Lima - 9.set.26/AFP — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)