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    A conversa com a IA que virou prova, risco e falta grave

    Uma notícia recente, no contexto da investigação de um dos maiores escândalos financeiros dos últimos anos, chamou atenção por uma peculiaridade: o histórico de pesquisas realizadas no ChatGPT por uma pessoa investigada foi analisado pelas autoridades e utilizado como elemento de confirmação de informações relevantes para a apuração. Leia mais (09/25/2026 - 14h13)

    Folha de S.Paulo
    25 de setembro de 2026 às 17:13
    A conversa com a IA que virou prova, risco e falta grave
    Tela de smartphone exibe o logotipo da OpenAI com fundo branco, enquanto ao fundo uma tela maior mostra o logotipo do ChatGPT com fundo verde. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Logotipos do laboratório de pesquisa em inteligência artificial OpenAI e do robô ChatGPT - Marco Bertorello - 22.jul.26/AFP
    Logotipos do laboratório de pesquisa em inteligência artificial OpenAI e do robô ChatGPT - Marco Bertorello - 22.jul.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Advogada, é professora da Saint Paul Escola de Negócios e sócia de Securato Advogadas

    Uma notícia recente, no contexto da investigação de um dos maiores escândalos financeiros dos últimos anos, chamou atenção por uma peculiaridade: o histórico de pesquisas realizadas no ChatGPT por uma pessoa investigada foi analisado pelas autoridades e utilizado como elemento de confirmação de informações relevantes para a apuração.

    Entre as pesquisas estavam consultas relacionadas às próprias condutas investigadas e até uma "confissão" sobre seu envolvimento. O episódio trouxe à tona uma questão que muitos usuários de inteligência artificial ignoram: o que escrevemos não permanece apenas entre nós e a máquina.

    Conheça principais modelos de inteligência artificial disponíveis na internet
    Conheça principais modelos de inteligência artificial disponíveis na internet — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A IA generativa deixou de ser novidade e passou a integrar a rotina profissional. De empregados iniciantes a executivos da alta liderança, ferramentas como ChatGPT, Claude e Gemini são usadas para analisar documentos, redigir textos e solucionar problemas.

    O problema é que esse "ajudante" eletrônico, tão disponível, também registra informações que podem trazer consequências jurídicas importantes.

    O Shadow AI Report 2026, da Teramind, que reúne pesquisas próprias e dados de fontes como IBM, Gartner, Cisco e Cyberhaven, aponta que 89% do uso de IA no trabalho ocorre fora dos canais submetidos à governança empresarial. A questão, portanto, já não é apenas se a empresa autorizou a ferramenta, mas se está preparada para o uso que seus empregados fazem dela e, principalmente, para as informações inseridas nesses sistemas.

    ChatGPT mudou cenário da inteligência artificial
    ChatGPT mudou cenário da inteligência artificial — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A primeira discussão diz respeito àquilo que o usuário escreve. Uma conversa com uma IA não transforma automaticamente seu conteúdo em prova de crime ou conduta ilícita. Autenticidade, contexto e forma de obtenção precisam ser considerados. Mas uma conversa pode revelar intenção, segredos e até confissões.

    A segunda questão surge quando não é o usuário que produz a informação, mas a própria IA. O Superior Tribunal de Justiça ( STJ ) enfrentou o tema no habeas corpus 1.059.475-SP, que discutia um "Relatório Técnico" produzido por IA generativa. A Quinta Turma considerou que, naquele caso, o documento não apresentava confiabilidade mínima, inclusive pelo caráter probabilístico da tecnologia e pelo risco de "alucinações", afastando seu uso como prova no processo penal.

    A terceira discussão interessa diretamente às empresas: o que acontece quando o empregado insere na IA informações da organização e de seus clientes? Em decisão recente, a 10ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 1ª Região manteve a justa causa de empregado que transferiu informações de cliente para uma ferramenta externa de IA. A corte reconheceu quebra dos deveres contratuais, além do descumprimento das regras de confidencialidade. E outra pergunta: o empregador pode acessar o histórico de ChatGPT do empregado e utilizá-lo como prova?

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A resposta passa por saber a quem pertencem o equipamento e a conta, se existe política interna prévia, a finalidade da investigação e a natureza das informações acessadas. Uma conta corporativa utilizada em equipamento da empresa não está juridicamente na mesma situação de uma conta pessoal acessada em dispositivo particular. Por isso, proibir o uso de IA não resolve o problema. As empresas precisam estabelecer parâmetros de utilização, definir ferramentas aprovadas, classificar informações que podem ou não ser compartilhadas e criar regras transparentes sobre proteção de dados, fiscalização e investigação.

    Os três casos mostram faces diferentes do mesmo fenômeno. Em um, o usuário escreve e aquilo pode se tornar elemento probatório. Em outro, a IA produz a informação, o que não significa que seja uma prova confiável. No terceiro, o usuário insere informação protegida e transforma uma ferramenta de produtividade em fonte de exposição.

    A IA generativa é uma poderosa ferramenta de trabalho, mas não substitui discernimento, responsabilidade ou estratégia. O desafio, daqui em diante, é saber se empresas e empregados estão preparados para utilizá-la com a mesma responsabilidade com que deveriam tratar qualquer informação capaz de produzir consequências no mundo real. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/a-conversa-com-a-ia-que-virou-prova-risco-e-falta-grave.shtml.

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