A bancada da indiferença e um voto que vale ouro
"Para mim, não muda nada votar. Na minha vida, tanto faz quem ganha e quem perde". Talvez por eu ser uma pessoa com deficiência , que sempre está à mercê da atitude de alguém, seja para ajudar a vencer uma calçada em frangalhos, seja para se indignar a meu lado por mais uma exclusão, a indiferença inquieta, corrói um pouco a esperança. Leia mais (10/06/2026 - 17h09)

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"Para mim, não muda nada votar. Na minha vida, tanto faz quem ganha e quem perde". Talvez por eu ser uma pessoa com deficiência , que sempre está à mercê da atitude de alguém, seja para ajudar a vencer uma calçada em frangalhos, seja para se indignar a meu lado por mais uma exclusão, a indiferença inquieta, corrói um pouco a esperança.

Na votação do último domingo (4), 33,4 milhões de pessoas , o equivalente a 21,08% do eleitorado, se abstiveram de ir à urnas, optou por não se manifestar, mesmo diante de uma troca de chumbo das mais intensas que o país já teve, mesmo com valores tão antagônicos sendo colocados em escrutínio público, mesmo quando não escolher também interfere na vida de milhões de pessoas.
Claro que é preciso considerar a chuvarada em alguns locais, os impossibilitados por doenças, os bloqueados por razões várias. Mesmo assim, ainda haveria contingente expressivo para eleger ou deseleger um caminhão de gente.
Mas o descompromisso com o destino político brasileiro é apenas um ponto de partida para o que acontece socialmente, em diversos setores.

Na semana passada, o levantamento "Radar da Inclusão", que ouviu 2.526 pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes em sua terceira edição, mostrou que 84% dos entrevistados que estavam empregados não ocupavam cargo de liderança nas empresas. Entre aqueles que estavam havia mais de três anos na mesma companhia, 44% nunca tinham sido promovidos. Mesmo entre os profissionais com ensino superior ou mais, eram 42%.
O número robusto dá outra dimensão ao "não estou nem aí". A legislação obriga empresas a cumprir cotas e ajudou a colocar pessoas com deficiência para dentro. Mas inclusão não pode terminar na catraca. Em muitos casos, o funcionário entra e fica estacionado num nível inferior, sem perspectiva real de desenvolvimento.
Outro ponto grave detectado pelo relatório é que 76% das pessoas com deficiência ou neurodivergentes na força de trabalho afirmam já ter vivido ao menos uma situação de capacitismo . E, entre aqueles que eram funcionários de uma empresa quando sofreram a discriminação, 64% não relataram o episódio ao empregador.

Aqui, embora entre o elemento "medo de perder o emprego", aprofunda-se mais o "tô nem aí". Se existem tantos casos, a prática corre solta e naturalizada. Se há tanto medo é que não se considerou criar um ambiente seguro para que possa falar de discriminação.
Enquanto escrevia este texto, recebi uma mensagem da mãe de um amigo meu, o Gabi, que tem uma condição física bem desafiadora com movimentos extremamente limitados em todo o corpo e a fala comprometida. Ele tem o intelecto preservado e usa comunicação alternativa por meio de dispositivos eletrônicos.
"Oi, Jairo! Me ajuda aqui. O Gabi terá 17 anos nas próximas eleições e está preocupado se conseguirá votar. O que você acha? Ele quer muito poder votar".
Dei risada sozinho pela coincidência. Adoro esses tais movimentos do universo. Sim, o Gabi pode e deve votar. Um dia, quem sabe, eu até me sinta representado por ele como candidato.
Uma coisa ele já provou: não está indiferente aos rumos do país. E sabe que, mesmo quando tanta gente acha que um voto não muda nada, o direito de manifestar o seu ainda vale uma batalha.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/assim-como-voce/2026/10/a-bancada-da-indiferenca-e-um-voto-que-vale-ouro.shtml.

Pessoas com deficiência são implicadas totalmente com a indiferença social em diversos setores; na imagem, Gabriel é apoiado por duas pessoas durante um passeio - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo
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