Brasil

    A ascensão violenta da mentira

    Na última conversa com Trump , Lula retificou mais um despropósito que contamina relações comerciais e diplomáticas: as mentiras deslavadas sobre desmatamento (diminuiu 50% desde 2022) e trabalho escravo (há combate às condições degradantes da mão de obra). Fake news , portanto, nenhuma novidade na história das agressões imperiais. É de memória viva a mentira de Bush sobre armas nucleares no Iraque , pretexto para uma guerra que arruinou aquele país. Leia mais (09/12/2026 - 16h15)

    Folha de S.Paulo
    12 de setembro de 2026 às 19:15
    A ascensão violenta da mentira
    Foto: Folha de S.Paulo

    Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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    Balão mostra o presidente dos EUA, Donald Trump, segurando boneco do presidente Lula, em manifestação bolsonarista na avenida Paulista - Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP · Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP
    Balão mostra o presidente dos EUA, Donald Trump, segurando boneco do presidente Lula, em manifestação bolsonarista na avenida Paulista - Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP · Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na última conversa com Trump , Lula retificou mais um despropósito que contamina relações comerciais e diplomáticas: as mentiras deslavadas sobre desmatamento (diminuiu 50% desde 2022) e trabalho escravo (há combate às condições degradantes da mão de obra). Fake news , portanto, nenhuma novidade na história das agressões imperiais. É de memória viva a mentira de Bush sobre armas nucleares no Iraque , pretexto para uma guerra que arruinou aquele país.

    Políticos mentem individualmente, como recurso retórico. Acredita ou finge acreditar quem quer, a depender do grau de confiança. O cientista e compositor Paulo Vanzolini sugeriu em canção ("Mente") um arguto caminho reflexivo para a questão: mentira como "uma hipótese de vida", na falta de qualquer outra. Mas com ressalva: "Pois na mentira, meu amor / crer, eu não creio / só pretendo que de tanto mentir / repetir que me ama / você mesma acabe crendo".

    Erro, momento falso na construção da verdade, é questão lógica. Mentira, não, é fenômeno ético, de alcance filosófico. Jacques Derrida (em "História da Mentira", 1995) detecta, assim como Vanzolini, um paradoxo: o mentiroso não é mero autor de uma falsidade, pois quer impingir como verdadeiro aquilo que ele sabe ser falso. Há intenção de enganar, portanto, um grau real de violência na quebra moral da responsabilidade que se deva ter para com o outro.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por isso, o fenômeno assume dimensão muito grave quando passa da esfera individual ao Estado, no funcionamento operativo de seus aparelhos coercitivos e ideológicos. É quando, na produção deliberada de falsidades, transparece o arbítrio hegemônico e cruel de um poder, a conversão do que Vanzolini chamou de "hipótese de vida" em hipótese de morte do sentido político. Acontece quando um pretenso modelo global da vida democrática tenta legitimar com mentiras suas agressões à soberania externa e seus assassinatos seletivos. São os Estados (não tão) Unidos da América, centralizados como potência imperial.

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    Assim, podem matar dirigentes de nações, sob qualquer pretexto. Afundar lanchas no Caribe , sem comprovação de narcotráfico nem resgate de sobreviventes, criando a figura (jurifascista) do "suposto criminoso", extensiva a imigrantes . Senão, extorquir petróleo a preço de custo ou transferir bilhões das reservas venezuelanas para os cofres americanos, enquanto assistem impávidos aos pedidos de socorro financeiro das vítimas do terremoto. É a mesma lógica das tarifas. A mentira respalda uma nova forma de colonização administrativa.

    Tudo isso incrementa, na aba da internacional direitista, a desintegração dos direitos do homem em escala continental. Entre nós, o fenômeno pôde ser vivido no auge bolsonarista, quando a disseminação oficial de mentiras impregnava a vida cotidiana. Hoje se aperfeiçoa de pai para filho na forma do cinismo cara-de-pau e tira a capa no âmago da mais alta magistratura do país.

    Nos frouxos de riso, caberia entoar juntos "todo es mentira", como no tango ("Yra, Yra") celebrizado por Gardel. É que a violência da enganação entubada pelos enganados parece mesmo uma triste hipótese de vida pública.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/muniz-sodre/2026/09/a-ascensao-violenta-da-mentira.shtml.

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    Balão mostra o presidente dos EUA, Donald Trump, segurando boneco do presidente Lula, em manifestação bolsonarista na avenida Paulista - Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP · Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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