A ascensão política de pautas antifeministas é uma ameaça às mulheres? NÃO
A ascensão política de pautas antifeministas não significa, por si só, uma derrota das mulheres ou do feminismo . Ela integra uma disputa política mais ampla, na qual também cresce a presença de mulheres e aliados comprometidos com a igualdade de gênero, os direitos sexuais e reprodutivos e o enfrentamento às desigualdades. Leia mais (10/09/2026 - 22h00)

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Socióloga, é pós-doutoranda na Unicamp e pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política - Laberp (Fundação Joaquim Nabuco - Fundaj)
Doutora em sociologia pela UFPE e pesquisadora do Laberp (Fundaj)
A ascensão política de pautas antifeministas não significa, por si só, uma derrota das mulheres ou do feminismo . Ela integra uma disputa política mais ampla, na qual também cresce a presença de mulheres e aliados comprometidos com a igualdade de gênero, os direitos sexuais e reprodutivos e o enfrentamento às desigualdades.

Enquanto algumas lideranças fazem do antifeminismo uma plataforma política, agendas feministas também ganham novas vozes e espaços . A política não se move de forma linear. Avanços sociais produzem reações e novos conflitos. A ampliação da presença das mulheres e a conquista de direitos abriram novos espaços de representação.
Estratégia promove projetos autoritários e normaliza violências e desigualdades
O antifeminismo contemporâneo é parte desse processo: responde às transformações produzidas pelo feminismo, mas em um mundo já modificado por essas conquistas. As eleições de 2026 ajudam a visualizar esse movimento . De um lado, Eduarda Campopiano (PL), aos 23 anos, foi eleita deputada estadual por São Paulo depois de construir sua projeção nas redes com um discurso crítico ao feminismo, ao aborto e às políticas de gênero. De outro, Ana Elisa (PT) chega à Câmara por Minas Gerais, também como expressão de uma renovação geracional vinculada a agendas progressistas e à ampliação de direitos. São trajetórias jovens, ligadas a projetos distintos, que mostram que a disputa geracional não pertence apenas à direita.

Por isso, a ascensão de lideranças antifeministas não deve ser lida como derrota do feminismo. Ela mostra o quanto gênero, autonomia, família, violência , cuidado e direitos reprodutivos passaram a ocupar o centro da política. O antifeminismo contemporâneo já não propõe simplesmente o retorno das mulheres ao espaço doméstico . Reivindica sua presença nas redes, universidades, partidos e Parlamentos, enquanto redefine o significado de emancipação feminina.
É possível defender mulheres "fortes" enquanto se combate sua autonomia reprodutiva; celebrar a participação feminina no Parlamento enquanto se questionam políticas de gênero; impulsionar projetos para mulheres empreendedoras enquanto se vota contra medidas de igualdade salarial; falar em proteção da vida quando se trata do feto, enquanto direitos sexuais e reprodutivos são colocados em disputa.
Quando grupos antifeministas afirmam que políticas destinadas às mulheres produziram privilégios, não abandonam a linguagem dos direitos: disputam seu significado. Direitos criados para enfrentar desigualdades podem ser apresentados como excessos, e sua retirada como restauração da justiça. Isso não significa que essas disputas sejam inofensivas. Projetos antifeministas podem produzir restrições concretas, sobretudo no campo reprodutivo, da educação e do enfrentamento à violência. Mas reconhecer esses riscos é diferente de interpretar sua ascensão como sinal de enfraquecimento inevitável do feminismo.

O avanço conservador sobre gênero, família e sexualidade recoloca para o feminismo a necessidade de disputar esse terreno. Não basta defender o que já foi conquistado. É preciso exercitar a imaginação política e voltar a disputar aquilo que ainda pode ser possível. Direitos sexuais e reprodutivos, enfrentamento à violência, igualdade salarial, autonomia econômica, divisão do trabalho de cuidado, proteção social e liberdade sexual podem compor um projeto de futuro. A ascensão de jovens mulheres antifeministas deve servir menos para anunciar uma derrota do feminismo do que para reconhecer a disputa em curso.
O futuro não pertence de antemão nem ao avanço conservador nem à resistência feminista: está sendo disputado agora. O desafio do feminismo é não apenas proteger direitos conquistados, mas apresentar às novas gerações uma ideia de sociedade capaz de mobilizar. A disputa não é apenas sobre quem pode falar em nome das mulheres, mas sobre quais demandas conseguem ganhar legitimidade, produzir alianças e disputar os rumos da política brasileira.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/a-ascensao-politica-de-pautas-antifeministas-e-uma-ameaca-as-mulheres-nao.shtml.

Eduarda Campopiano (PL) durante campanha para deputada estadual em SP; eleita com 1,9 milhão de votos, a maior votação do estado para o cargo - @eduarda_campopiano no Instagram — Foto: Folha de S.Paulo
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