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    A arte de se desesperar

    Quando a mãe de Marina Silva foi levada às pressas ao longínquo posto de saúde em razão de uma dor de cabeça lancinante, a filha não imaginava que, em menos de 24 horas, perderia não só a mãe como a casa com tudo dentro. Ela tinha 14 anos quando o aneurisma materno foi diagnosticado como meningite e sua casa foi queimada pelos agentes de saúde, medida sanitária comum na época. Leia mais (10/05/2026 - 18h20)

    Folha de S.Paulo
    5 de outubro de 2026 às 21:20
    A arte de se desesperar
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    Diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de “Manifesto Antimaternalista”, “Felicidade Ordinária” (Jabuti 2025) e “Análise". É doutora em psicologia pela USP

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando a mãe de Marina Silva foi levada às pressas ao longínquo posto de saúde em razão de uma dor de cabeça lancinante, a filha não imaginava que, em menos de 24 horas, perderia não só a mãe como a casa com tudo dentro. Ela tinha 14 anos quando o aneurisma materno foi diagnosticado como meningite e sua casa foi queimada pelos agentes de saúde, medida sanitária comum na época.

    Claro que não se tem notícia de que alguma sede de fazenda rica tenha sido queimada pela mesma razão.

    A vida na floresta amazônica era cheia de injustiças e privações, embora não faltassem amor, dignidade e até encantamento. Mas, naquela data fatídica, para além da fome e da pobreza, o desamparo pela morte da matriarca e pela destruição do lar foi total. A família estava a um passo de se desestruturar.

    Ao entrevistá-la recentemente —uma honra para mim—, não conseguia parar de imaginar seu desespero naquele dia em que, adolescente, viu seu mundo desabar.

    Lembrei do conceito freudiano de desamparo, "Hilflosigkeit". Freud coloca o desamparo, aquele para o qual uma análise aponta, no centro da questão do sujeito no mundo.

    Somos desamparados, fato inegociável, e nos viramos nos trinta com isso. A ideia é que, ao final de uma análise, para além da eliminação de sintomas incapacitantes, possamos assumir esse limite em vez de insistir no erro de negá-lo. Aliás, uma das funções dos sintomas é justamente tentar driblá-lo, fingir que ele é contingente, não estrutural.

    O desamparo contingente é o que decorre das péssimas condições materiais, da humilhação, da fome, da injustiça social. Sobre ele há muito a fazer.

    A questão é que quem lida com o seu próprio desamparo estrutural tem chances aumentadas de se solidarizar com as más condições de vida dos outros. Como se dissesse: "nada do que eu amealhar vai me tirar da condição humana e, nessa, estamos juntos".

    Esse reconhecimento impede que caiamos no "esquema de pirâmide afetiva", que se baseia em supor que seja possível alcançar satisfação real quando nos cercamos de relações pragmáticas e indiferentes. Já quem não suporta o próprio desamparo costuma imputá-lo ao outro.

    Estão aí os bodes expiatórios dos que se consideram melhores que os outros, fadados a uma existência paranoica, facilmente observável em figuras de poder à nossa volta.

    Para a psicanálise, o desespero é condição para que deixemos de esperar e assumamos um ato. Isso implica fazer o luto de falsas expectativas e elaborar enquanto se criam estratégias para sobreviver.

    Marina Silva, aos 14 anos, diante da derrocada do pai, assumiu o trabalho dele clandestinamente, pagando a dívida da família, num gesto de solidariedade e superação. Frente à tomada de posição da filha, seu Pedro saiu da imobilidade e retomou sua vida dura, mas digna. Ainda levaria dois anos para que Marina encontrasse a oportunidade para se alfabetizar.

    Hoje ela é ganhadora do Prêmio Goldman (1996) —o "Nobel" do meio ambiente — e foi considerada pela revista Time uma das cem pessoas mais influentes do mundo (2024).

    Seu sentido de urgência foi fundamental para ajudar na sobrevivência de todos à sua volta, enquanto tentavam fazer o luto possível.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera-iaconelli/2026/10/a-arte-de-se-desesperar.shtml.

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