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    A arrecadação com as bets e o dinheiro do apostador que não chega ao consumo

    Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou a medida provisória que proíbe as bets no Brasil . Desde então, o tema domina o debate público, sinal do peso que o setor ganhou em poucos anos. A discussão vai da saúde pública ao financiamento dos clubes de futebol, e o Congresso ainda terá de decidir se converte a MP em lei. Leia mais (10/01/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    2 de outubro de 2026 às 01:00
    A arrecadação com as bets e o dinheiro do apostador que não chega ao consumo
    Mãos de pessoa seguram um celular branco com capa azul, exibindo um jogo colorido na tela. A pessoa veste suéter bege e calça preta, sentada com o aparelho próximo ao corpo. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Aplicativo de aposta online em celular - Allison Sales - 3.out.2024/Folhapress
    Aplicativo de aposta online em celular - Allison Sales - 3.out.2024/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP (Made-USP)

    Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou a medida provisória que proíbe as bets no Brasil . Desde então, o tema domina o debate público, sinal do peso que o setor ganhou em poucos anos. A discussão vai da saúde pública ao financiamento dos clubes de futebol, e o Congresso ainda terá de decidir se converte a MP em lei.

    Mesmo quem reconhece os danos das bets costuma fazer uma ressalva: a proibição teria um custo econômico, sobretudo para as contas públicas . Vale, então, olharmos com atenção para esse argumento.

    Moradores da periferia são os mais viciados em jogos online
    Moradores da periferia são os mais viciados em jogos online — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em análise de agosto, o Centro Celso Furtado e o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) estimam que as famílias perderam R$ 62,5 bilhões com apostas online em 2025 . Esse número é grande, mas ainda tende a subestimar o efeito total na economia .

    Ao levarmos em conta que o dinheiro gasto em apostas deixa de ir para bens e serviços que movimentam mais a economia, esse efeito se multiplica. Um exemplo claro é o de alimentação fora de casa: ao pagar a conta em um restaurante, parte do valor é utilizada para remunerar os fornecedores dos ingredientes, outra para pagar os cozinheiros, uma terceira vira salário dos garçons e assim por diante.

    Todos esses pagamentos geram uma nova rodada de consumo, o que faz com que a economia gire. É o que chamamos em economia de multiplicador. No caso das bets, esse encadeamento é mínimo, e só parte pequena do dinheiro gasto retorna à economia.

    Viciados em bets buscam acolhimento em Jogadores Anônimos
    Viciados em bets buscam acolhimento em Jogadores Anônimos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em estudo do Made-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP), levamos em conta esse efeito multiplicador do consumo e estimamos que, em 2025, as bets podem ter retirado até R$ 114 bilhões dos demais setores da economia. É importante notar que esses valores já descontam estimativas do que as bets gastam no país —salários, publicidade, patrocínios, outros serviços e o consumo gerado pelos lucros—, com base em estudos encomendados pelo próprio setor e em hipóteses favoráveis a ele. Ou seja, mesmo levando em conta a renda que as bets fazem circular na economia, o efeito sobre os outros setores da economia é muito negativo —equivalente a algo entre 30% e 40% de todo o crescimento de 2025.

    O argumento econômico que tem sido mais usado para criticar a MP é o de que o governo estaria abrindo mão de arrecadação com a proibição . É preciso ter clareza de que esse argumento não parece se sustentar.

    Parte expressiva da arrecadação do governo vem de impostos sobre consumo. Ao reduzir de forma tão importante a atividade nos demais setores, nossos cálculos indicam que as bets geraram uma perda de arrecadação entre R$ 23 bilhões e R$ 44 bilhões em 2025. Mesmo descontados os cerca de R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com a tributação das apostas, a perda líquida fica entre R$ 14 bilhões e R$ 35 bilhões. Para comparação, o custo total da isenção de Imposto de Renda aprovada em 2025 e que afeta 15 milhões de pessoas custa cerca de R$ 28 bilhões.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O custo para a sociedade é ainda maior quando se consideram os danos à saúde . Estimativas do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) indicam que os danos associados a apostas e jogos de azar custam pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano. Parte desses custos, como o tratamento, recai sobre o SUS e agrava o efeito sobre as contas públicas.

    É importante mencionar também que, além desses efeitos negativos no PIB e no Orçamento público, há evidência de que as bets agravam o endividamento das famílias e podem aumentar a desigualdade.

    Na linguagem econômica, custos que uma atividade impõe ao restante da sociedade são chamados de externalidades . A resposta usual é tributá-la: o imposto reduz o consumo e gera receita para compensar os danos. Em princípio, esse poderia ser o caminho para as bets.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Com as evidências disponíveis, porém, não está claro se há tributação alta o suficiente que permita o funcionamento das bets e, ao mesmo tempo, gere arrecadação que compense seus custos.

    O que sabemos é que, tal como funcionava até agora, o setor impunha prejuízos enormes aos demais setores da economia e às contas do governo. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/a-arrecadacao-com-as-bets-e-o-dinheiro-do-apostador-que-nao-chega-ao-consumo.shtml.

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