A aposta eleitoral no Bolsa Família pode não valer a pena
O governo Lula anunciou, a 17 dias do primeiro turno, um reajuste de 15,04% no Bolsa Família . O valor mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, com pagamentos a partir de 19 de outubro. Embora reponha a inflação acumulada desde março de 2023, o momento revela uma finalidade eleitoral: depois de quase quatro anos, o governo escolheu a campanha para fazer o que poderia ter feito durante o mandato. Leia mais (09/22/2026 - 08h00)

Economista pela UFPE e especialista em gestão pública no Insper. Estudou economia comportamental na Warwick University (Reino Unido) e é associada do Livres
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O governo Lula anunciou, a 17 dias do primeiro turno, um reajuste de 15,04% no Bolsa Família . O valor mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, com pagamentos a partir de 19 de outubro. Embora reponha a inflação acumulada desde março de 2023, o momento revela uma finalidade eleitoral: depois de quase quatro anos, o governo escolheu a campanha para fazer o que poderia ter feito durante o mandato.
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Essa aposta parte de uma vantagem já consolidada: Lula tinha 53% das intenções de voto entre quem recebe o benefício ou mora com um beneficiário, ante 36% entre os demais, segundo o último Datafolha . Ou seja, na prática, trata-se de uma estratégia para consolidar a candidatura junto ao público que mais a aprova.

Esse cálculo encontra respaldo na literatura: programas de transferência de renda podem render votos, embora o momento do pagamento seja decisivo. Em Honduras, pagamentos mais elevados no pico e no fim de um programa elevaram o comparecimento e o apoio ao partido governista, segundo Sebastian Galiani e coautores .
Contudo, no reajuste atual o calendário limita esse possível retorno. Embora o anúncio tenha ocorrido antes do primeiro turno, o aumento só será pago a partir de 19 de outubro. Pelo calendário oficial, beneficiários com NIS (Número de Identificação Social) de final 1 a 5 recebem até o dia 23; os demais, após o segundo turno. A promessa pode ter efeito imediato, mas a renda extra cairá no bolso de uma parte das famílias antes do fim da eleição.
Acertar o timing do calendário é apenas uma das condições para que a transferência de renda gere votos. Na avaliação de uma expansão do Bolsa Família, a inclusão de 100 famílias a cada 10 mil habitantes elevou a votação de prefeitos candidatos à reeleição em 2,6 pontos percentuais, segundo estudo preliminar do economista Arthur Alberti. Esse retorno concentrou-se nos municípios que já contavam com Cras (Centros de Referência de Assistência Social) e, nas comparações, foi maior onde havia busca ativa e acompanhamento mais intenso. Na prática, o ganho político depende também da capacidade local de apoiar as famílias beneficiadas.
Ao passo que o retorno eleitoral é incerto, o problema de desenho é concreto. Em 2022, Bolsonaro elevou o Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600; Lula manteve esse piso e retomou os adicionais vinculados à composição familiar. Desde então, o programa passou a operar com muito mais recursos, sem reduzir a pobreza de forma eficiente.
Aplicando as regras atuais aos dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2023, Laura Müller Machado estima que R$ 76 bilhões seriam suficientes para erradicar a pobreza com focalização perfeita, o que representa menos da metade dos R$ 167 bilhões previstos para 2025. Isto é, simplesmente aumentar os valores não significa, automaticamente, mais resultados.
Por isso, se a ideia é melhorar o Bolsa Família, o governo poderia vincular melhor o benefício à composição familiar e suavizar a transição para quem aumenta a renda. Embora a Regra de Proteção já evite a perda imediata do auxílio, o mecanismo poderia ser suavizado ao utilizar, por um período, uma fração da renda do trabalho no cálculo do benefício, reduzindo o impacto do aumento dos rendimentos.
Além disso, um agente de desenvolvimento social nos Cras poderia acompanhar cada família e conectá-la aos serviços públicos existentes, seguindo um caminho que vem sendo trilhado por iniciativas estaduais .
Logo, uma política que melhora vidas merece reconhecimento eleitoral quando recompensa resultados construídos ao longo do mandato. Neste caso, o atual governo deixou problemas conhecidos sem resposta e, às vésperas da eleição, optou por um reajuste linear que custará R$ 22,7 bilhões por ano . O Bolsa Família funciona, e essa é mais uma razão para aperfeiçoá-lo com base em evidências, e qualquer reajuste deveria ser consequência desse trabalho, não um atalho às vésperas da eleição.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/deborah-bizarria/2026/09/a-aposta-eleitoral-no-bolsa-familia-pode-nao-valer-a-pena.shtml.

Lula anuncia reajustes no Bolsa Família ao lado do ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (à esq), da chefe da Casa Civil, Miriam Belchior, e do ministro da Economia, Dario Durigan - Ricardo Stuckert - 17.set.26/Presidência da — Foto: Folha de S.Paulo
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