258 indígenas assassinados - a omissão do Estado
A violência contra os povos indígenas se agravou no país de acordo com os dados divulgados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em seu relatório "Violência contra os Povos Indígenas no Brasil ? Dados de 2025". Leia mais (09/11/2026 - 20h25)

Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental - Kanindé
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A violência contra os povos indígenas se agravou no país de acordo com os dados divulgados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em seu relatório "Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2025".
Foram 258 assassinatos de indígenas no ano passado, um salto de 22% em relação a 2024. Mais estarrecedor ainda é o dado sobre a infância: 1.024 crianças de até 4 anos morreram, sendo que 57% dessas mortes foram por causas evitáveis, como desnutrição e doenças respiratórias. Foram contabilizados 215 casos de suicídio entre indígenas nesse período, principalmente entre jovens.
Não estamos diante de uma tragédia natural, mas de um projeto de extermínio que conta com a chancela do Estado brasileiro.

Esse agravamento se deu diante de impasses jurídicos, pressões econômicas e falhas do poder público. A paralisia e a demora crônica nos processos demarcatórios deixam os povos indígenas em constante vulnerabilidade. Comunidades que avançaram por conta própria na retomada de seus territórios tradicionais se tornaram alvos centrais de milícias privadas. A pressão de atividades ilícitas, como o garimpo ilegal, a extração ilegal de madeira e a grilagem de terras, é cada vez mais forte.
O avanço do crime organizado , com a crescente infiltração de facções e redes criminosas estruturadas dentro dos territórios indígenas, intensifica o caráter letal dos conflitos.
A omissão do poder público resultou no colapso de serviços básicos. A falta de equipes de saúde, de infraestrutura de saneamento e de água potável nas aldeias desaguou no aumento alarmante de mortes evitáveis entre crianças indígenas.

O relatório do Cimi aponta que a Lei do Marco Temporal (14.701/2023) aprofundou a insegurança jurídica e transformou o Estado em negociador, abrindo caminho para invasões. Dos 1.443 territórios mapeados, 897 (62%) têm pendências administrativas —em 582 deles não houve nem providência inicial. Roraima (82 homicídios), Amazonas (47) e Mato Grosso do Sul (37) são os epicentros dessa guerra silenciosa.
A violência, contudo, não se limita ao campo. Ela é estrutural e tem gênero. O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), em consonância com os dados do Cimi, escancarou que a violência contra mulheres indígenas mais que triplicou em dez anos, com um aumento de 258% entre 2014 e 2023, com 79% das vítimas de violência sexual sendo menores.
Tão grave quanto a violência é a impunidade como política de Estado, o que legitima operações policiais letais sem ordem judicial e a omissão dos agentes. A demora na demarcação é a certidão de óbito de milhares de indígenas.

Não há como falar em democracia enquanto a Constituição de 1988 é rasgada em nome do lucro.
O marco temporal é a legalização da barbárie. É necessário que a sociedade se mobilize para exigir a revogação imediata dessa lei, a demarcação urgente de todos os territórios ainda não demarcados e a responsabilização dos agentes públicos e privados que financiam e executam essa violência.
Ignorar esses dados é ser cúmplice de um genocídio que se desenrola a céu aberto. Não podemos fechar nossos olhos diante desses assassinatos!

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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/09/258-indigenas-assassinados-a-omissao-do-estado.shtml.

Capa do relatório 'Violência contra os Povos Indígenas no Brasil - Dados de 2025', do Cimi - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo
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